O Parto Natural

Essas são algumas opiniões de alguns colegas profissionais sobre o Parto Natural e também sobre o Parto Domiciliar



Segunda-feira, Março 29, 2010


Sexta-feira, Julho 24, 2009

Estudos a respeito de pesquisas sobre partos domiciliares indicam taxas muito menores de infecções na mãe e no bebê do que as taxas comuns dos hospitais. Em um estudo de 10 anos (1970-1980) de 1.200 nascimentos na Fazenda (The Farm, uma comunidade Hippie americana) em Summertown, Tennessee, EUA, 39 mães sofreram de infecções pós-parto, e apenas um bebê desenvolveu septicemia. [4]


Ao chamar a maternidade de um hospital de “berço de germes”, o Dr. Marsden Wagner, Diretor Europeu da Organização Mundial da Saúde (OMS), alertou os médicos em uma conferência médica internacional em Jerusalém, no outono de 1989, que partos hospitalares põem em perigo mães e bebês primariamente, por causa dos procedimentos impessoais e o abuso de drogas e Tecnologia. [5]

Referências:
1. The Birth Gazette, Fall, 1987, review of The Cry and The Covenant, p. 32-33.
2. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 240-241.
3. The Wall Street Journal, Oct. 12, 1988.
4. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 127.
5. Mothering, Out/Nov/Dez, 1989.

Não há lugar melhor do que o lar para o nascimento de uma criança
Mito nº. 5 – Um hospital é o lugar mais confortável para ter um bebê

A idéia de estar confortável durante o parto de um bebê pode parecer impossível e impressionar muitas mães que tiveram seus bebês no hospital. Elas se lembram de estarem confinadas a uma cama de hospital, de não receberem água nem alimento, de serem separadas de seus outros filhos e membros da família e amigos que poderiam estar lhe dando apoio nessa hora, tolerando freqüentes exames de toques e verificação dos sinais vitais, sendo transferidas de uma sala para outra numa cama no auge das contrações mais intensas e tendo suas pernas levantadas e colocadas em um estribo para dar à luz.
As salas de parto e suas mobílias agradáveis são um esforço para eliminar um dos estresses e desconfortos que vêm de estar no ambiente estranho de um hospital.
Estudos mostram que o trabalho de parto pode ser comprometido por um ambiente não familiar. Desconforto e medo podem, na verdade, aumentar a dor experimentada durante o parto, enquanto que relaxamento pode diminuir o stress materno, aumentando o fluxo de oxigênio para o bebê e facilitando o trabalho de parto.
Em sua própria casa, uma mulher em trabalho de parto tem a vantagem do ambiente familiar. Ela pode se mover com liberdade, usar a roupa que desejar, tomar sucos ou chás estimulantes, continuar a cuidar de seus outros filhos, se ela estiver em condições para tal, relaxar numa banheira de água morna, ter seus pés massageados por amigos queridos e tentar diferentes posições para o parto. Um trabalho de parto normal é um estresse saudável para o bebê, limpando seus pulmões dos fluídos e preparando-o para sua primeira respiração fora do útero.
Após o parto, o bebê nunca é tirado de perto da mãe. A família inteira pode subir numa cama limpa para o muito necessário abraço e soneca. O vínculo emocional que toma lugar nos momentos após o parto entre a mãe e o bebê e entre o bebê e o resto da família promovem um melhor ser humano, encorajam a amamentação e a rápida recuperação da mãe.

Profissionais capacitados que atendem partos domiciliares existem, e estão disponíveis.
Mito nº 6 — É impossível achar um profissional qualificado para assistir meu parto em casa.

Enquanto discussões a respeito dos ‘prós e contras’ de partos não-hospitalares e a quem cabe a responsabilidade de assistí-los, continuam sendo feitas na comunidade médica e de especialistas, milhares de bebês saudáveis estão nascendo em seus próprios lares a cada ano.

No entanto, o parto domiciliar não é para todas as mulheres. É necessário que haja um alto grau de confiança no seu corpo, na sua saúde, e no conhecimento adquirido, além de um alto nível de auto-responsabilidade para ir contra a maioria que acredita que partos hospitalares são mais saudáveis e melhor.

Quando você estiver analisando o melhor local para o seu parto, leia livros indicados no Guia de Pesquisa deste site. Converse com mulheres que deram à luz em casa, em casas de parto, em clinicas, maternidades e em grandes hospitais. Discuta sobre isso e tire suas dúvidas com seu médico, ou parteira.

Converse com muitos profissionais adeptos ao parto humanizado que estiverem próximo à sua cidade. Avalie o nível de conhecimento, experiência prática, formação, filosofia e a cada descoberta, verifique se o trabalho dele é compatível com as suas expectativas. Apesar de a maioria dos obstetras realizar partos nos hospitais, alguns aceitam assistir partos em outros locais. Médicos especializados em clínica-geral que atendem gestantes, podem ser contatados, no entanto, ultimamente, nessa área, os riscos de erro médico é um pouco maior, e eles cobram mais caro.

Enfermeiras-obstétricas certificadas atendem em várias capitais, e em alguns hospitais realizam acompanhamento pré-natal, assim como nas clínicas e nas casas de parto. Parteiras bem treinadas e capacitadas são especialistas em partos normais. Algumas são diretoras de maternidades, e outras têm atendido gestantes de várias partes do país.

Nos EUA, em 1989, o custo médio que uma família costumava pagar por um parto hospitalar tradicional sem complicações, era de $4.334, segundo pesquisa do Seguro Americano de Saúde, realizada envolvendo 173 hospitais comunitários, 70 maternidades e 153 parteiras. [1]

Em 1989, a grande maioria das famílias americanas pagava cerca de $4.334 por um parto sem complicações no hospital.

O colapso dos custos por um parto hospitalar incluir uma taxa padrão do médico no valor de US$ 1.492,00 (R$ 3.500,00) para um parto normal e US$ 2.053,00 (R$ 4.800,00) para uma cesárea, e custos hospitalares (que não incluem outras taxas como os serviços por um anestesista) em torno de US$ 2.842,00 (R$ 6536,60).

Em vinte outros paises, mais crianças sobrevivem ao seu primeiro mês de vida, do que nos E.U.A.

Em 1989 a taxa média cobrada por uma parteira era $994.
Em 1989 a taxa média cobrada por uma parteira era de US$ 994,00 (cerca de R$ 2.300,00), um valor que normalmente inclui o cuidado pré-natal, aulas de parto e o material para o parto, enquanto que a taxa de um médico não inclui nada disso.

Qual tipo de atendimento de parto é o certo para você? Em alguns estados americanos, as escolhas são limitadas e baseadas nas leis que restringem a prática das parteiras. A ONG “Friends of Homebirth” (Amigas do Parto Domiciliar) foi fundada em 1989 com o alvo de trabalhar para garantir o direito das mulheres americanas para poder escolher um parto domiciliar com uma atendente treinada. O parto domiciliar é uma escolha razoável para muitas famílias e a legislação restritiva americana deve ceder ao direito Constitucional (americano) da escolha paterno-materna responsável.

Para encontrar alternativas de atendentes de parto, as americanas têm a opção de entrar em contato com educadoras perinatais e o grupo local da “La Leche League ”.

Referências:
1. Health Insurance Association of America, 1989, 1025 Connecticut Ave. NW, Washington D.C., 20036-3998.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 6:09 PM


Ciência não foi capaz de aprimorar o corpo humano nas funções em que este foi criado para exercer.

Em outros 20 paises, mais bebês sobrevivem no primeiro mês de vida, do que nos EUA.

O parto tem os seus riscos. No entanto, em apenas uma pequena porcentagem de casos, as habilidades de um obstetra/ginecologista e o uso de equipamentos modernos como o ultra-som e os monitores fetais são realmente necessários para a mãe e o bebê sobreviverem sem danos a longo prazo.

A taxa de mortalidade neonatal nos EUA em 1989 atingia um pouco mais que 10 por 1.000 nascidos vivos[1]. Os EUA têm os equipamentos mais sofisticados e modernos e o sistema de saúde mais caro no mundo. No entanto, em vinte outros países — alguns dispondo de menos tecnologia que eles têm nos laboratórios e hospitais — mais bebês sobrevivem em seu primeiro mês de vida, do que os bebês americanos.

Porque esses outros países têm obtido resultados melhores?

Com menos hospitais bem equipados e obstetras disponíveis, alguns desses paises — como Holanda, Suécia e Dinamarca — usam parteiras como os responsáveis pelo atendimento de rotina das mulheres durante a gestação e o parto. [2]

A OMS — Organização Mundial de Saúde — diz que os EUA deveriam investir no sistema de atendimento pré-natal com enfermeiras obstétricas (parteiras).

Considerando o risco potencial do uso rotineiro da tecnologia, a OMS tem pedido repetidamente às autoridades médicas dos EUA para investirem no sistema de atendimento materno-infantil com enfermeiras-obstetras como a única forma de diminuir as altas taxas de mortalidade. [3]

Parteiras, na verdade, atendem partos no mundo inteiro. Médicos, apesar de terem um treinamento avançado e serem especializados em cirurgias, não provaram ser melhores que parteiras no atendimento ao parto normal, além disso nenhuma pesquisa realizada comprovou que hospitais são os locais mais seguros para se dar à luz.

Na verdade, estudo após estudo vem demonstrando que, para a maioria das gestantes dos EUA, o sistema de atendimento pré-natal e ao parto feito por parteira é altamente aconselhável. Nas próximas páginas, você saberá por quê.

Referências:
1. National Committee to Prevent Infant Mortality, HOMEBIRTH No. 8, Sept/Oct 1990, p. 5.
2. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 114.
3. Mothering, Jan/Feb, 1990.

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Estudos indicam que partos domiciliares são seguros.
Mito nº1 — Parto hospitalar é estatisticamente mais seguro que parto em casa.

A segurança, em se tratando de parto, é medida por quantas mães e bebês morreram e quantos sobreviveram, pelo menos com um pouco de saúde.

Estudos realizados comparando partos hospitalares e não-hospitalares indicaram que poucas mortes, ferimentos e infecções ocorreram em partos domiciliares atendidos por parteiras. Nenhum estudo comprova que hospitais são mais seguros do que parto em casa.

Foi constatado que, o risco de problemas respiratórios em bebês recém-nascidos é 17 vezes mais alto nos partos hospitalares do que nos partos em casa.
Os EUA têm a maior taxa de intervenção obstétricas durante o trabalho de parto, assim como têm enfrentado sérios problemas com o crescimento de erros médicos.
Enquanto a taxa de mortalidade neonatal e materna tem diminuído drasticamente desde a virada do século, fatores como nutrição e higiene têm influenciado bastante nesse resultado.

No geral, a mortalidade infantil tem crescido desde os anos 30, mesmo assim, os partos domiciliares demonstraram ser mais seguros. Em 1939, Baylor Hospital Charity Service em Dallas, Texas, publicou um estudo que revelou uma taxa de mortalidade neonatal de 26.6 por 1.000 nascidos vivos em casa comparando com a taxa de mortalidade no hospital, que chegou a 50.4 por 1.000.[1]

Desde meados dos anos 1970, pesquisas realizadas no nordeste da Califórnia, Arizona, England e no Tennessee apontaram para a maior segurança dos partos em [2] O único estudo populacional randomizado, que comparou 1,046 partos domiciliares contra 1,046 partos no hospital, foi publicado em 1977 por Dr. Lewis Mehl, médico de família e estatistico. [3]

Enquanto as taxas de mortalidade neonatal e materna são estatisticamente as mesmas em ambos os grupos, segundo a pesquisa, a taxa de problemas de saúde foi maior no grupo hospitalar: 3.7 vezes mais bebês que nasceram no hospital necessitaram de ressucitação. Foi constatado ainda que as taxas de infecção nos recém-nascidos foram 4 vezes maiores no grupo do parto hospitalar, e a incidência de problemas respiratórios nos bebês nascidos no hospital foi 17 vezes maior do que os bebês que nasceram em casa.

Uma outra pesquisa realizada ao longo de seis anos, pelo Texas Department of Health, de 1983 a 1989, revelou que a taxa de mortalidade infantil nos partos assistidos por parteiras não certificadas, em casa, foi de 1.9 a cada 1.000 comparada com a taxa dos partos realizados por médicos de 5.7 a cada 1.000.[4] A taxa nos partos assistidos por parteiras treinadas e certificadas foi de 1 a cada 1,000 e por outros tipos de assistentes foi de 10.2 mortes por 1,000 nascidos vivos.[5]

Um estudo envolvendo 3.257 partos fora do ambiente hospitalar, no estado do Arizona assistidos por parteiras licenciadas entre 1978 a 1985 mostrou que a mortalidade materna atingiu 2.2 a cada 1,000 e a mortalidade neonatal atingiu 1.1 a cada 1,000 nascidos vivos.

Em depoimento na reunião da Comissão Americana de Prevenção à Mortalidade Infantil, Marsden Wagner, Enfermeiro Parteiro e Diretor da Organização Européia de Saúde Mundial, sugeriu a necessidade dos EUA, de uma formação acadêmica de enfermeiras obstétricas como forma de contrabalancear a quantidade de médicos obstetras, fomentando assim a prevenção ao excesso de intervenções no processo normal de nascimento. [6]

Wagner afirma ainda que na Europa, as parteiras são bem mais numerosas que os obstetras: "Em nenhum país europeu os médicos realizam atendimento primário às gestantes de baixo risco, nem durante a gestação, nem no parto". Ele alega que os EUA têm o mais alto índice de intervenções obstétricas, no entanto também tem enfrentado sérios problemas com a grande quantidade de erros médicos, e aconselha dizendo que um serviço bem estruturado e organizado de atendimento à gestante feito por parteiras nos EUA poderia reverter esta situação.

Referências:
1. The Five Standards of Safe Childbearing, 1981, Stewart, p. 241.
2. Ibid, p. 115-116, 127, 243-246.
3. Ibid, p. 247-253.
4. Texas Lay Midwifery Program, Six Year Report, 1983-1989, Bernstein & Bryant, Appendix VIIIf, Texas Department of Health, 1100 West 49th St., Austin, TX 78756-3199.
5. Labor Pains: Modern Midwives and Homebirth, Sullivan & Weitz, 1988.
6. Mothering, Jan/Feb, 1990.
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Parteiras são profissionais capacitadas
Mito nº2 — Você tem mais atenção dos profissionais nos hospitais do que em casa.

No hospital, os obstetras geralmente não sentam ao lado da parturiente em trabalho de parto, mas se apóiam em máquinas e nos outros para obter informações e então aparecem no ultimo momento, na sala de parto. A maioria dos médicos não tem uma relação próxima com cada gestante e não as incentivam a ter um parto natural.

As enfermeiras da sala de parto dão um apoio muito maior à mulher durante todo o trabalho de parto. A rotina hospitalar, no entanto, envolve uma certa burocracia, mudança de profissionais, plantões de acordo com horários, e uma flutuação de quantas mulheres cada enfermeira deve ficar responsável. E enfermeiras não têm autoridade para evitar que um médico impaciente tente acelerar o trabalho de parto normal.

Nas últimas décadas, as mulheres têm reclamado do ambiente frio e clinico dos hospitais onde dão à luz, assim muitas instituições têm se rendido a essa pressão da sociedade para modificar esses ambientes esterilizados para um ambiente mais parecido com um lar. [1] Muitos estão permitindo que os acompanhantes entrem nas salas de parto, e alguns até incentivam a participação da doula no parto. Mas, para muitas mulheres, o ato fisiológico de dar à luz não combina com esse ambiente clinico e hospitalar, por mais que tudo corra bem.

Os partos domiciliares planejados, assistidos por um profissional experiente, têm gerado ótimos resultados.

Enquanto estatísticas indicam que partos não-planejados ou sem assistência em casa têm causado resultados piores do que os partos hospitalares, os partos domiciliares planejados e assistidos por um profissional experiente, têm gerado ótimos resultados. [2]

Existe uma variedade enorme de profissionais, à sua escolha, que atendem partos domiciliares — médicos obstetras, enfermeiras obstétricas, parteiras certificadas ou não. Um pequeno número de médicos, alguns membros do American College of Home Obstetrics, atendem partos domiciliares ou nas clínicas. Muitas maternidades nos EUA são administradas por médicos dessa especialidade.

Parteiras especializadas são enfermeiras formadas que deram continuidade à sua formação especializando-se em obstetrícia. A maioria desses profissionais trabalha sob supervisão médica e com o apoio de um hospital, mas poucos têm experiência em parto domiciliar.

Esta profissão é baseada em um conjunto de procedimentos aplicados por um profissional capacitado à mulher e ao bebê durante o primeiro ano de vida, e, em muitos outros paises, parteiras são responsáveis pelo acompanhamento pré-natal e do parto, e esse sistema tem gerado taxas de mortalidade infantil bem menores que as dos EUA. Parteiras são treinadas para observar algum sinal de problema durante a gestação e o parto, e se for necessário, elas chamam um médico obstetra.

Parteiras são responsáveis pelo atendimento primário no pré-natal e no parto
em países com taxa de mortalidade neonatal bem menor que a dos EUA.
Consultas pré-natal com parteiras costumam ser agradáveis, relaxantes e amigáveis
e duram, em média, de trinta minutos a uma hora.

O número de parteiras inscritas nos cursos de formação em obstetrícia tem nos últimos vinte anos, assim como a demanda por este serviço. A maioria das parteiras ainda não formadas tem terminado o curso de capacitação, e vêm sendo treinadas, na prática, com outras parteiras experientes. Esta prática é legalmente permitida apenas em doze estados americanos, e, em alguns desses, é pedida uma licença para exercer o trabalho. Nos estados americanos onde a profissão ainda é ilegal, o trabalho é enquadrado como “prática de Medicina sem diploma”.crescido muito

A prática da profissão de parteira é livre em vinte estados americanos, sendo feita sob regulamentação estatutária ou em estados americanos que ainda não possuem legislação específica. [Ed. — Information about the current midwifery legal situation in individual states or Citizens for Midwifery Grassroots Network.]

Consultas de pré-natal com um médico obstetra em um hospital público ou no consultório geralmente pedem muito tempo de espera por uma consulta rápida. Comparando com as visitas das parteiras, que geralmente são bem relaxadas, mais longas, amigáveis e pode durar até 30 min ou 1 hora. Enfermeiras obstetras normalmente usam este tempo para orientar os benefícios de uma boa alimentação, da prática de atividades físicas, e em como você pode ir se preparando para o parto.

Apesar da formação das enfermeiras obstetras variar um pouco, muitas coletam alguma amostra para laboratório, caso necessário, escutam o coração do bebê, para avaliar se há sinal de sofrimento fetal durante o trabalho de parto, carregam consigo uma bomba de oxigênio portátil, e são treinadas em ressucitação cardio-pulmonar.

Referências:
1. A Good Birth, A Safe Birth, 1990, Korte & Scaer, p. 8-21.
2. Ibid, p. 64-68.
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A Tecnologia pode complicar um parto normal
Mito nº 3 — De quanta mais tecnologia você dispõe, mais fácil será o parto.

No esforço de evitar complicações cada vez mais cedo, e aumentar o nascimento de bebês saudáveis, a Medicina tem modificado o ambiente que envolve o parto de uma atmosfera de atenção, carinho e apoio à parturiente para uma atmosfera de Tecnologia, clínica, fria e moderna.
Apesar de a Tecnologia salvar vidas quando necessário, o uso rotineiro dela pode interferir no processo normal do parto e nascimento.

Cada intervenção médica em um trabalho de parto normal tem seus efeitos colaterais.

O modelo de parto hospitalar dos EUA tem a maior taxa de intervenções médicas
como também, uma grande quantidade de processos por erros médicos.

É comum nos hospitais o uso de soro e monitoramento eletrônico do feto para assegurar que a mãe permaneça hidratada e que as contrações e os batimentos cardíacos do bebê sejam gravados. No entanto, muitas mulheres não gostam de permanecer confinadas numa cama, com agulhas em seus braços e cintos presos à barriga.

Mulheres que são orientadas a permanecer ativas e livres durante o trabalho de parto, reclamam menos de dor nos quadris, e muitos especialistas em parto defendem a tese de que os movimentos e caminhadas durante esse período tornam as contrações mais eficazes.

Alguns hospitais ainda requerem que as mulheres permaneçam deitadas em decúbito dorsal, e que mantenham suas pernas levantadas nos estribos. Como essa posição coloca trabalho do útero contra a gravidade, e faz com que cada contração seja menos eficiente, algumas vezes é necessário se usar o fórceps de alivio para puxar o bebê pela vagina. Evidências cientificas mostram que o fórceps é raramente utilizado quando a mulher tem liberdade de assumir posições mais confortáveis durante o período expulsivo.

Obstetras freqüentemente rompem a bolsa das águas com um instrumento como forma de acelerar o processo do parto. Este procedimento automaticamente dá ao parto um tempo limite, já que a possibilidade de infecção hospitalar aumenta com cada hora que passa, após a bolsa ter sido rompida.

Uma vez que a bolsa que protege o bebê é eliminada, o cinto de monitoramento, usado para acompanhar as variações nos batimentos cardíacos do bebê, pode dar lugar ao monitoramento eletrônico fetal (ou eletrodo de escalpo) — uma ponta de eletrodo minúscula é presa ao couro cabeludo do bebê para continuar monitorando o coração e para coletar a informação sobre o sangue do bebê.

Cada uma dessas intervenções usadas em um trabalho de parto normal envolve um grau de risco, e ainda não foi comprovado que o uso desses procedimentos proporciona mais vantagens, elimina complicações ou torna o bebê mais sadio.

Um estudo recente publicado em um jornal médico prova que o uso rotineiro de monitoramento eletrônico fetal, comparado com o antigo modo de ouvir o coração do bebê após as contrações com fetoscópio, pode causar mais problemas de saúde do que prevenir [1]. Em oito experimentos clínicos randomizados, a mortalidade materna e neonatal não foi reduzida com o uso do monitoramento eletrônico fetal. E talvez, por causa do monitoramento eletrônico, cesáreas desnecessárias foram realizadas, além disso o resultado dos partos monitorados com fetoscópio foram bem melhores e mais positivos. [2]

Atualmente, pelo menos 25% das mulheres tem filho através de cirurgia. Compare esse dado com a taxa de 10% de cesárea em outros paises cuja mortalidade neonatal e materna é bem menor [3] . Esses números indicam que nós não estamos conseguindo bons resultados praticando mais cesáreas.

Há várias décadas atrás, em um esforço para diminuir a dor do parto, médicos ofereciam rotineiramente drogas anestésicas às suas parturientes. Ao longo dos anos, o uso discriminado de muitos desses medicamentos, serviram de subsídios a estudos que revelaram que a droga usada como anestesia durante o trabalho de parto à mãe causa efeitos colaterais no bebê, incluindo asfixia, hipoxia, e danos ao cérebro e ao sistema nervoso [4].

As drogas ainda estão disponíveis para eliminar a dor do parto nos hospitais, apesar de que ainda não foi comprovado que essas drogas usadas como anestesia são realmente seguras para o bebê. [5]

Mulheres que utilizaram drogas anestésicas no trabalho de parto relataram diminuição no sentimento da relação mãe-filho e aumentaram a duração e a severidade da depressão pós-parto. [6]

O hormônio artificial ocitocina, uma droga ministrada para intensificar o trabalho de parto e aumentar as contrações uterinas após o parto também tem efeitos colaterais potenciais, incluindo casos raros de ruptura uterina e um leve aumento na icterícia do recém-nascido. [7]

Interferir no andamento natural do parto com uso indiscriminado de Tecnologia pode causar mais males do que benefícios.

Referências:
1. New England Journal of Medicine, March 1, 1990.
2. The Cutting Edge, Feb. 1990, p. 4, P.O. Box 1568, Clayton, GA 30525.
3. Birth Without Surgery, Carl Jones, 1987, p. xii.
4. The Five Standards of Safe Childbirth, 1981, Stewart, p. 185.
5. Ibid, p. 175
6. A Good Birth, A Safe Birth, 1990, Korte & Scaer, p. 18, 201-209.
7. The Five Standards of Safe Childbirth, 1981, Stewart, p. 300.
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não afetam a mãe ou o bebê
Mito Nº. 4 – O hospital é um lugar mais salutar para ter um bebê do que em casa.

A febre puerperal matou milhares de mulheres no século 19. Na época, os médicos, que também cuidavam dos doentes e moribundos, começaram a atender os partos nas clínicas. Como os hospitais se tornaram lugares para nascimentos e mortes, as infecções se tornaram uma praga para as gestantes e outros pacientes dos hospitais.

Cerca de 100 anos atrás, na Áustria, um médico chamado Ignaz Semmelweis tentou diminuir o número de mortes maternas por infecções, que eram altas, na taxa de 40% entre as mulheres que tinham seus bebês na maternidade do hospital de Viena. [1] Semmelweis descobriu que, simplesmente ao lavar as mãos entre a realização de autópsias e o atendimento a partos, a taxa de infecções causada por médicos diminuía drasticamente. Semmelweis foi ridicularizado pelos seus colegas e não foi senão até cinco anos após sua morte, que seus descobrimentos começaram a receber aceitação. Com o advento da técnica asséptica no final do século XIX e o desenvolvimento de antibióticos na década de 1940, uma gradual melhora foi vista. [Ed. Assim como bactérias resistentes têm se desenvolvido de maneira que estas não são afetadas pelos antibióticos, pode se esperar que essa tendência seja revertida, e podemos esperar ver um crescimento nas mortes por infecções adquiridas em hospitais.].

Na década de 30, estudos na cidade de New York e em Memphis, Tennessee, mostraram que menos mulheres morreram por infecções e hemorragias nos partos domiciliares do que as que morreram pelas mesmas complicações nos hospitais. [2]

Os procedimentos de controle de infecção altamente modernos e caros
não conseguem eliminar a causa das infecções nos hospitais.

Hoje em dia, os rigorosos e caros procedimentos de controle de infecção ainda não eliminaram as infecções nosocomiais, ou hospitalares, causadas por organismos comuns e perigosos, como certos grupos de estafilococos.

De acordo com uma reportagem no Wall Street Journal, a agência de regulação hospitalar dos EUA, A Comissão da Junta de Autorizações em Organizações de Cuidados com a Saúde (The Joint Commission on Accreditation of Health Care Organizations), está falhando ao obrigar padrões de controle de infecções, comprometendo a saúde dos pacientes de hospitais: “A Comissão da Junta está permitindo perigos à saúde e à segurança por deixarem hospitais sem inspeções por semanas, meses e mesmo por anos. Dessa maneira, com uma inspeção mal feita faz com que hospitais irresponsáveis tenham pouco temor à Comissão, já que as punições, nos anos mais recentes, quase inexistiram”. [3]

Cada família se habitua aos seus próprios germes domésticos e desenvolve uma resistência a eles. Uma vez que menos pessoas estranhas costumam estar presentes no momento do parto domiciliar do que num parto hospitalar, as chances de adquirir germes estranhos são menos comuns em uma situação de parto domiciliar.

Todo o esforço é feito para prover um ambiente limpo nos partos domiciliares. As parteiras e os obstetras que atendem os partos domiciliares usam luvas estéreis, assim como instrumentos esterilizados para cortar o cordão umbilical.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 5:23 PM


Segunda-feira, Março 17, 2008

Resposta do Ricardo Jones ao jornal que publicou a matéria contra partos domiciliares
Caríssimos:
O documento que critica a assistência ao parto em ambiente não-hospitalar
(Opinião: Parto em casa: retrocesso), escrito pela presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro e publicado em jornal de grande circulação no Rio de Janeiro, não poderia ser muito diferente do que se esperava, partindo da expoente local da
corporação que se beneficia diretamente com a medicalização do nascimento.
Infelizmente repetiu-se a catilinária que estamos acostumados a assistir quando o debate se acerca da assistência ao parto e a autonomia da mulher nas escolhas sobre profissionais e contextos em que ele vai ocorrer.

Na esperança de encontrar alguma novidade estimulante para o debate mais uma vez eu procurei meus óculos para tentar ler aquelas famosas "letrinhas miúdas" existentes no final de uma publicação qualquer que possua pretensão científica. Sem surpresa, no final do texto não havia nenhuma nota, nenhuma letrinha média, grande ou pequena; o texto da minha nobre colega não traz NENHUMA comprovação das afirmações que apresenta. Nada. Nenhuma informação é baseada nas evidências científicas atualizadas que brotam dos estudos de várias partes do planeta. Absolutamente NADA, como é rotina nas manifestações dos colegas que tratam de um mito profundamente temido por nós obstetras: o parto sem os aparatos mágicos que construíram a nossa profissão às expensas de uma compreensão defectiva da mulher. Nada do que a nobre doutora fala no seu texto pode ser considerado além de uma OPINIÃO pessoal, construída através de anos de profundo temor pelo evento do parto, num absoluto distanciamento do processo natural de trazer vida ao mundo. Nós obstetras somos criados e construídos para ter pavor do evento natural, e moldados para interferir nele mitologicamente através de nossas máquinas e instrumentos para, controlando-o, afastar o medo que dele temos. Todas as afirmações da doutora estão afastadas dos estudos que nos mostram a segurança do parto normal realizado em domicílio, inclusive negando exemplos positivos contundentes como os da Holanda, onde 33% das crianças chegam ao nosso convívio na intimidade dos seus lares (com um dos níveis de morbi-mortalidade materna e perinatal dos melhores do mundo), ou mesmo o trabalho de Johnson e Daviss de 2005 - publicado no British Medical Journal - acompanhando mais de 5000 mulheres que tiveram seus filhos em casa, com o auxílio de parteiras profissionais (CPMs), com resultados perinatais iguais ou superiores aos encontrados em hospitais. Além disso, o trabalho de Johnson & Daviss nos demonstra um custo muito menor, com maior satisfação materna, menor morbidade para as mães e recém nascidos, conseqüentemente apresentando taxas mais elevadas de amamentação. Ao mesmo tempo em que minha colega fecha os olhos para as vantagens do parto domiciliar em lugares como os países baixos, também se nega a avaliar a realidade americana de alto investimento em tecnologia - mas que ostenta o vergonhoso posto de 41º país em mortalidade materna - e não reconhece que o Brasil, ao imitar o modelo americano
iatrocêntrico (centrado no médico), etiocêntrico (centrado na doença) e hospitalocêntrico (centrado no hospital), só poderá amargar - na melhor das hipóteses - os mesmos resultados ruins que o paradigma americano produz para o nascimento humano.

Todos os exemplos e os estudos internacionais que falam a favor da melhor qualidade dos partos domiciliares são esquecidos, negados ou sonegados pela colega, que prefere investir na cultura do medo que nega as evidências e mantêm as mulheres amordaçadas e silentes, prisioneiras dos mitos "mutiladores" e "assassinos" relacionados com o parto em casa; nada mais
coerente para um paradigma que mantém as mulheres tuteladas e incapacitadas de gerar e parir com liberdade e autonomia. Felizmente, outros países menos condicionados às forças do mercado estão acordando para a importância de restituir o protagonismo à mulher, e tomando atitudes determinadas nesta direção. Com esta coragem de mudar e desafiar mitos calcificados pela falta de crítica, a Inglaterra, no ano de 2006, através da liderança de Patricia Hewitt - Ministra da Saúde - propôs uma mudança radical e estratégica na atenção às grávidas, incentivando os partos fora do ambiente hospitalar, exatamente por não haver nenhuma comprovação (em milhares de anos de história) de que os hospitais produzam melhoria nos resultados maternos e
perinatais em população de risco habitual. Ao lado disso TODAS as publicações abrangentes que avaliam os riscos da atenção extra-hospitalar ao nascimento com uma metodologia correta apontam na mesma direção: a comprovação de que os partos planejados no domicílio, quando comparados com os hospitalares, apresentam resultados iguais ou melhores na atenção às
pacientes pertencentes a este mesmo grupo populacional de risco habitual.

Restitua-se o parto às mulheres e elas continuarão a revolução libertária. Liberte a mulher e a sociedade inteira se modificará como conseqüência. Não é possível uma sociedade justa e digna quando somos recebidos neste mundo através do arbítrio de mulheres caladas e corpos invadidos. Confiscar das mulheres seus corpos e seus partos e mantê-las reféns de um modelo tecnocrático que NÃO comprova sua superioridade é uma das maneiras mais hábeis de manter cidadãs caladas e dóceis.

Entretanto, as palavras da doutora fazem eco em uma boa parte da população feminina, e basta conversar com 10 mulheres da classe média, embebidas num mundo de celulares milagrosos e celulites desastrosas, para nos darmos conta de que ELAS MESMAS organizam as palavras que a líder da corporação médica vai escrever. O discurso da medicina emana dos pacientes como vasos comunicantes, numa dialética silenciosa que perpassa pelos mitos e valores profundos que controlam inconscientemente nosso proceder. Prisioneiras de seus medos, as mulheres ainda se encontram atordoadas diante de sua própria participação no evento expropriativo de suas responsabilidades femininas. Somente a mudança desses valores é que poderá nos fazer mudar tais condutas, assim como a criação de uma nova divindade se segue à queda de um velho Totem. Felizmente, nosso otimismo nos obriga a enxergar que a mitologia depreciativa da mulher e do feminino não se manterá indefinidamente em um mundo de informação instantânea e com ampla oportunidade de contraditório.

Nesta trilha de libertação, as ferramentas mais poderosas são a informação e a ..... paciência.

Apenas através do fortalecimento destas duas asas poderemos alçar vôo e combater a mitologia contemporânea, que nos puxa para o passado, que nos faz imitar modelos americanos fracassados, que nos empurra para a crença da inferioridade biológica da mulher e que cria profissionais da saúde divorciados da realidade libertadora do nascimento.
Um abraço

Ricardo Jones, MD Obstetra - Homeopata
ReHuNa - Rede pela Humanização do Parto e Nascimento
HumPar - Rede pela Humanização do Parto - Portugal
IMBCO - International MotherBaby Childbirth Organization
Instituto Jean Bergés de Psicanálise e Medicina
1 - Marie Wolf and Sophie Goodchild, "Mummy State: Childbirth Revolution". Independent on Sunday (London), May 14, 2006
2 - Organização Mundial de Saúde. Assistência ao Parto Normal: Um guia Prático. Relatório de um Grupo Técnico. Genebra, 1996. 53p.
3 - Enkin M. & Cols, Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. 3a Edição - Guanabara Koogan 2000
4 - "Outcomes of planned home births with Certified Professional Midwives: a large prospective study in North America." Kenneth C. Johnson, senior epidemiologist, Betty Anne Daviss, project manager. BMJ 2005; 330:1416 (18 jun).
5 - T. A. Wiegers, J. van der Zee, and M. J. Keirse, "Maternity Care in the Netherlands: The changing Home Birth Rate", Birth 25, no 3(1998): 190-97
6 - Anderson, Rondi E., CNM, MS and Patricia Atkins Murphy, CNM. DRPH. 1995.
"Outcomes of 11,788 Planned Home Births attended by Certified Nurse Midwives: A retrospective descriptive Study". Journal of Nurse Midwifery 40:483-492.
7 - Rooks, JP, ML Westherby, EKM Ernst, S Stapleton, D Rosen, and A Rosenfield. 1989 "Outcomes of Care in Birth Centers: The National Birth Center Study". New England Journal of Medicine. 1804-1811.
8 - Schienzka, Peter F. 1999. "Safety of Alternative Approach to Childbirth". Department of Sociology, Stanford University, Palo Alto, CA
9 - Challenges in measuring maternal mortality. The Lancet, Volume 370, Issue 9595, Pages 1291-1292 A. Yazbeck

Opinião: Parto em casa: retrocesso
Márcia Rosa de Araújo presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj)

Não há gravidez nem parto sem risco. Esta é uma verdade científica da qual parecem esquecer - ou propositadamente ignorar - aqueles que têm incentivado o retorno do parto domiciliar. Dar à luz em ambiente familiar, com assistência apenas de uma parteira, é proposta que alimenta o imaginário de muitas mulheres, pois era assim que funcionava no tempo de suas avós ou bisavós. Mas cabe aos médicos e profissionais de alguma forma comprometidos com a saúde alertá-las para os riscos que tal prática implica.

Além de ignorar essa obrigação dos que zelam pela saúde das pessoas, o novo rol de procedimentos e eventos da ANS fere a
legislação vigente ao permitir a cobertura dos planos de saúde aos partos feitos, exclusivamente, por enfermeira obstétrica. Qualquer médico, obstetra ou não, sabe que a evolução de um parto é imprevisível.
Apesar de a maioria ocorrer sem anormalidades, entre 15% e 20% podem apresentar complicações que tornam imprescindível a
presença de um médico.

Estudos internacionais mostram que 10% dos recém-nascidos necessitam de algum procedimento especializado no momento do parto para iniciar a respiração e 1%, de medidas bastante agressivas para sobreviver. Nesses casos, o tempo para o atendimento adequado, especializado, que poderá salvar o recém-nascido é de segundos, na maioria das vezes.

Dos cinco milhões de recém-nascidos que morrem anualmente, cerca de um milhão são vítimas de asfixia intra-útero ou no momento do parto. Os que sobrevivem à asfixia podem ter seqüelas neurológicas irreversíveis, deficiências escolares e outros problemas de comportamento. Da mesma forma, a hipoglicemia - presente também em recém-nascido fruto de gravidez aparentemente sem risco - pode levar à morte ou a lesões encefálicas irreversíveis. É importante também ressaltarmos as complicações maternas, principalmente hemorragias durante e após o parto.

Os dois casos exigem atendimento especializado quase imediato, o que é impossível no parto domiciliar. Por isso, mesmo as gestantes de baixo risco devem ter partos em instituições hospitalares tradicionais, como diz a recomendação científica internacional, e na presença também do pediatra, como determinam portaria do Ministério da Saúde e resolução do Cremerj. A intenção é clara:garantir às mulheres e bebês um atendimento de qualidade e amparado na ciência e tecnologia que o avanço da medicina nos oferece.

Não se questiona aqui a opção preferencial pelo parto normal. Mas a normalidade não significa que o procedimento deva ser feito na
residência da gestante, onde nem mesmo uma equipe treinada e equipada poderá oferecer a adequada atenção nas eventuais complicações.
Ressaltamos que nesses casos a cesariana realizada oportunamente modificará favoravelmente o resultado.

Por esses motivos, o Cremerj não considera humanizado um parto feito fora de ambientes hospitalares e não concorda com a posição da ANS neste sentido. Segundo a resolução criada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em 2002, o médico não pode emitir declaração de óbito nos casos em que houve atuação de profissional não-médico. Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura o atendimento médico aos recém-nascidos.

Dessa forma, a conseqüência da medida da ANS é deixar mãe e filho em situações de risco. É bem verdade que não temos os melhores indicadores de assistência materno-infantil, mas morrem muito menos mães e bebês atualmente do que no tempo das parteiras em casa. Até meados do século passado, morriam 150 mulheres a cada 100 mil partos com bebês nascidos vivos. Nas últimas décadas, o índice de mortalidade caiu para 51 a cada 100 mil. Ainda é muito alto - mais que o dobro do que a Organização Mundial de Saúde considera olerável - mas a diferença representa a preservação de milhares de vidas.

Isso é possível porque os avanços da ciência e da tecnologia permitem diagnósticos mais precisos e o apoio de equipamentos modernos no tratamento dos problemas médicos. Ignorar esses benefícios é um retrocesso inaceitável, que priva gestantes e
recém-nascidos de um atendimento digno e põe suas vidas em risco.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 2:42 PM


Quarta-feira, Março 12, 2008

A necessidade da humanização do parto - PEIXES NÃO CONSEGUEM VER A ÁGUA !
A necessidade da humanização do parto*
Marsden Wagner**


"Humanizing birth means understanding that the woman giving birth is a human being, not a machine and not just a container for making babies."
Marsden Wagner


Apresentar as mulheres – que constituem metade da população mundial – como inferiores e inadequadas, tirando seu poder de dar à luz, é uma tragédia para toda a sociedade. Por outro lado, respeitar as mulheres como seres humanos importantes e de valor e assegurar-se que a experiência feminina do parto seja gratificante e empoderadora não é simplesmente um simpático detalhe a mais, como é absolutamente essencial porque torna a mulher mais forte e desta forma cria uma sociedade mais forte.

Parto humanizado significa colocar a mulher que está dando à luz no centro e no controle de forma que ela, e não os médicos ou qualquer outra pessoa, tome todas as decisões a respeito do que está acontecendo. Parto humanizado significa compreender que o foco do atendimento materno são as necessidades básicas e primárias da comunidade, e não os cuidados terceirizados do hospital, com enfermeiras e médicos trabalhando juntos em harmonia, como iguais. Parto humanizado significa cuidados maternos baseados na boa ciência, incluindo o uso de drogas e tecnologia com base nas evidências científicas.

Entretanto não temos atendimento humanizado na maioria das maternidades hoje. Por que?


Porque peixes não vêem a água na qual estão nadando. Os profissionais do parto não têm a menor idéia de como é um parto sem intervenções, um parto que não seja desumanizado. A inteira literatura moderna em obstetrícia e neonatologia é essencialmente baseada em observações de partos medicalizados.

Por que o parto medicalizado é necessariamente desumano? No parto medicalizado é o médico quem está no controle da situação, e não a mulher. Os pacientes nunca têm efetivamente controle num hospital. Entregar as escolhas às mulheres não quer dizer que os médicos não tenham nenhum controle, já que eles devem decidir quais são as escolhas elas têm à disposição.

O trabalho de parto e parto são funções do sistema nervoso autônomo e estão portanto fora do controle da consciência. Conseqüentemente existem duas abordagens no atendimento ao parto: trabalhar com a mulher para facilitar suas próprias respostas autônomas; violentar a biologia e impor o controle externo usando intervenções como drogas e procedimentos cirúrgicos – este é o parto medicalizado.

Hoje em dia há três tipos de cuidados maternos: os altamente medicalizados, high tech, centrados no médico, sendo as enfermeiras obstetras marginalizadas, como nos EUA, Irlanda, Rússia, Republica Tcheca, França, Bélgica e Brasil urbano; existe a abordagem humanizada com a presença forte e mais autônoma das enfermeiras, como na Holanda, Nova Zelândia e nos países escandinavos; enfim, uma mistura dos dois modelos como se encontra na Grã Bretanha, Canadá, Alemanha, Japão e Austrália. Nos países em via de desenvolvimento se encontra geralmente o modelo altamente medicalizado nas cidades enquanto que nas áreas rurais permanece o modelo humanizado. Nesses países é reforçada a idéia de que a única razão para a existência de partos não hospitalares atendidos por enfermeiras obstetras é a ausência de estruturas que permitam a implantação do modelo medicalizado.

Entretanto, nós estamos violentando a natureza às nossas custas. Por exemplo, se paramos de usar nossos corpos, eles decaem. É moderno pegar o carro ao invés de fazer uma caminhada. Daí a ciência descobre que essa atitude causa problemas cardiovasculares e que, portanto, precisamos fazer exercício. A idéia pós-moderna é a de voltar a andar e fazer jogging, o que é visto como progresso e não regresso. Da mesma forma os serviços maternos humanizados não são um retrocesso, mas um progresso pós-moderno.

Todas as mudanças na condição humana trazem conseqüências, algumas negativas outras positivas. A cesárea às vezes salva vidas às vezes mata: a mortalidade materna nas cesáreas (incluindo as eletivas) é 2.84 ou quase três vezes maior do que em partos vaginais. Os obstetras aclamam a medicalização high tech do parto como um progresso, mas as evidências científicas sugerem o contrário. Não houve nenhuma significativa melhora nos países industrializados nos últimos 20 anos nas taxa neonatais de paralisia cerebral e bebês de baixo peso. A tentativa dos países altamente industrializados de mostrarem taxas de baixa mortalidade perinatal com intervenções invasivas no atendimento obstétrico faliu.

Um número de estudos tem falhado em detectar qualquer relação entre as taxas de mortalidade perinatal e os índices de parto cirúrgico. Nos países industrializados estamos vivendo o momento em que os efeitos positivos do desenvolvimento e da tecnologia estão alcançando o máximo e os efeitos negativos estão aparecendo. Isso ajuda a explicar porque os avanços na tecnologia e no desenvolvimento não podem levar a melhorias na saúde, a menos que a tecnologia esteja em harmonia com os processos biológicos naturais e esteja acompanhada por cuidados humanizados. É por isso que agências de desenvolvimento internacional , como o Banco Mundial, sabem que o desenvolvimento econômico não pode levar à melhoria das condições humanas se não for acompanhado pelo desenvolvimento social e educacional.

O maior perigo na questão do parto ocidental medicalizado é sua exportação em larga escala para os países em desenvolvimento. As evidências científicas mostram que dar infusão de IV a uma mulher em trabalho de parto não é necessário, mas esta prática nos países ricos, mesmo sendo um desperdício de dinheiro, não é uma tragédia. Nos pequenos hospitais rurais, a rotina de IV é um trágico desperdício de recursos limitados. Quando os países ocidentais em desenvolvimento adotam as práticas obstétricas sem fundamentação nas evidências científicas, o resultado é outras mulheres morrendo por falta de recursos. Grande parte dos procedimentos adotados não tem adequada confirmação científica.

Muitos médicos não entendem como os dados científicos populacionais se aplicam a seus pacientes individuais, daí a objeção em manter suas taxas de cesáreas nos limites recomendados. A isso corresponde a incapacidade dos médicos sanitaristas em confrontar os obstetras a respeito dos excessos cometidos em suas práticas por medo do poder dos médicos e por lealdade para com a corporação.


O melhor exemplo disso é a respeito do parto domiciliar planejado. Muitos médicos e suas organizações continuam acreditando nos perigosos de parto domiciliar planejado ou mesmo em Casas de Parto, recusando as evidências mais explícitas de que o parto não hospitalar para mulheres de baixo risco é seguro.
A primeira falácia é que no parto as coisas podem acontecer rapidamente. De fato, fora algumas exceções, as coisas andam devagar durante o trabalho de parto e parto e as verdadeiras emergências nas quais os segundos são importantes, são extremamente raras e nesses casos, as enfermeiras obstetras em Casas de Parto ou nos domicílios sabem o que fazer.

A segunda falácia sustenta que quando acontecem problemas não tem nada que uma enfermeira possa fazer se estiver fora do hospital. Na verdade, uma enfermeira obstetra treinada, na medida em que se encontra numa relação de cuidados intensiva e individualizada, pode prever problemas e prevenir que aconteçam, enquanto que em hospital as enfermeiras podem dar atenção as parturientes só ocasionalmente. Se algum problema acontecer, a enfermeira obstetra fora do hospital pode fazer tudo o que faria no hospital. Exemplo disso é uma manobra para distócia de ombro na literatura médica que tem o nome da parteira que primeiro a descreveu (Gaskin).

A terceira falácia diz que no hospital é possível tomar providências com mais rapidez. Acontece que mesmo em hospitais, quando se pede uma cesárea, são necessários pelo menos 30 minutos para que o médico chegue e o centro cirúrgico seja preparado. Esses 30 minutos podem ser usados pela enfermeira obstetra para levar a parturiente ao hospital.

Concluindo, não há razões para citar casos individuais e anedóticos a respeito de ‘e se....’ que os médicos usam para assustar as mulheres e a opinião pública no intento de convencer os políticos de que sua maneira de entender o parto é a correta.
Recentemente há um movimento desejável na direção de estabelecer práticas obstétricas pautadas em evidências científicas, mas ainda hoje muitos obstetras não estão familiarizados com as evidências e nem com os meios para obtê-las. Alguns obstetras tendem a se enganar a respeito da fé na tecnologia e no mantra: tecnologia = progresso = moderno. O outro lado da moeda é a perda de confiança na natureza, assim expressa por um médico canadense: “A natureza é um obstetra ruim.”

Com o intuito de conquistar a natureza, o século XX, assistiu a uma série de fracassos na tentativa de melhorar a evolução biológica e social. Os médicos substituíram as parteiras em nascimentos de baixo risco e a ciência provou que as parteiras são mais seguras. O hospital substituiu as casas como local de nascimento para parto de baixo risco e a ciência mostrou que o domicílio é tão seguro quanto o hospital e com muito menos intervenções. A equipe hospitalar substituiu a família no suporte dado à parturiente, e a ciência provou que o parto é mais seguro com a família. A posição horizontal substituiu o parto vertical e a ciência provou que a posição vertical é mais segura. O exame ao recém-nascido longe da mãe nos primeiros vinte minutos de vida substituiu a relação mãe-filho, e a ciência provou a importância da realização do vínculo mãe-bebê nesses primeiros momentos de vida. O leite feito pelos homens substituiu o leite das mulheres e a ciência provou que o aleitamento materno é superior. O berçário substituiu a mãe, a ciência provou que o alojamento conjunto é melhor.


A quintessência da medicalização e desumanização do parto é a cesárea desnecessária, na qual o cirurgião está no comando e a mulher não tem nenhum controle. As mulheres e seus filhos estão pagando um alto preço pela promoção que alguns médicos fazem da cesárea. Os dados científicos a respeito da mortalidade materna associada à cesárea sugerem que a elevada taxa de mortalidade materna nos EUA e no Brasil, pode ser, pelo menos em parte, devida à sua alta taxa de cesárea. Ambos os países deveriam fazer uma cuidadosa auditoria de todos os óbitos maternos associados com altas taxas de cesárea.

Por que tantas cesáreas? Quando os cuidados maternos estão sob o controle dos médicos a as enfermeiras obstetras são marginalizadas ou ausentes, é encontrada uma alta taxa de cesáreas. O fato é que ter um cirurgião ginecológico altamente treinado para atender um parto normal é o mesmo que ter um cirurgião pediátrico como babá de um criança normal de 2 anos de idade. As taxas de cesárea são o sintoma da falha na humanização do parto. E se uma mulher recebe uma cesárea simplesmente porque ela prefere, isso significa que haverá menos recursos humanos e financeiros para o resto do sistema de saúde. As mulheres no Brasil estão também pagando outro preço: num país com amplas regiões carentes, é um desperdício perigoso e um luxo insensato as altas taxas de cesáreas de seus centros urbanos.

À luz de tudo isso, o Comitê para os Aspectos Éticos da Reprodução Humana e da Saúde das Mulheres – o FIGO (uma organização internacional que reúne as organizações obstétricas nacionais) – estabeleceu em 1999 que fazer cesáreas por motivos não-médicos é eticamente injustificável.

A humanização do parto tem a potencialidade de combinar as vantagens da medicalização ocidental com as vantagens de redirecionar os cuidados para honrar a natureza biológica, social, cultural e espiritual do nascimento humano. Há diversas estratégias para a humanização do parto, estratégias que colocarão as mulheres e suas famílias de volta no controle do nascimento de suas crianças enquanto dará poder a mulher para acreditar em si mesma tendo experiência daquilo que seu corpo é capaz de fazer.


A primeira estratégia é a educação. Quem controla a informação detém o poder. As transformações nos sistemas de informação estão revolucionando profundamente o sistema de saúde. O advento da internet e das conexões globais está tendo um intenso efeito no sentido de levar as informações a qualquer pessoa. Todos devem poder ver a água na qual médicos e hospitais estão nadando e ver que às vezes há tubarões que podem não comer médicos, mas comem algumas mulheres e bebês.

A necessidade de ampliar o horizonte dos médicos a respeito dos cuidados maternos não é um problema novo. Num livro médico do ano de 1668 se lê: ‘Médicos que nunca assistiram a um parto domiciliar e mesmo assim sentem-se competentes para falar contra, se parecem com aqueles geógrafos que nos dão descrições de muitos países que eles nunca viram.’

Precisamos pedir aos médicos que olhem para as águas nas quais os cuidados maternos humanizados acontecem a fim de poder obter um padrão fisiológico de referência para suas experiências. Num programa de treinamento obstétrico nas Filipinas, por exemplo, todo médico deve atender um número mínimo de partos domiciliares planejados. Todo programa de treinamento obstétrico deveria exigir visitas guiadas às Casas de Partos e a partos planejados fora do hospital. Enfermeiras obstetras necessitam da mesma experiência.

A educação das mulheres, especialmente daquelas grávidas, é de fundamental importância, mas aqui o problema é: o que é dito a elas. Em alguns lugares, os programas de pré-natal são controlados por alguns poucos obstetras que insistem em dar somente informações que lhes são convenientes. Diante das pesquisas mais recentes, para que os médicos tenham sucesso em promover a cesárea eletiva, é preciso que seu leque de informações seja extremamente limitado e selecionado. É altamente improvável que as mulheres escolham uma cesárea se recebessem todas as informações baseadas em evidências a respeito dos riscos inerentes para elas e seus filhos. O conceito ético-chave aqui não é o direito de escolher um procedimento cirúrgico sem necessidade médica, e sim o direito de receber e poder discutir amplamente e sem preconceitos todo e qualquer procedimento cirúrgico.


A segunda estratégia para a humanização do parto é a promoção de práticas obstétricas baseadas em evidências. Registramos o fracasso das tentativas feitas por revistas especializadas e pelas decisões da saúde pública que, em muitos lugares, tentaram preencher a distância que separa a realidade da prática obstétrica das evidências científicas. São poucos os médicos efetivamente preocupados com a situação.


Outra estratégia essencial para a humanização do parto é: quem é o profissional responsável dos cuidados básicos para as mulheres em trabalho de parto e parto. A insistência dos médicos em querer controlar sua própria prática com pouca ou nenhuma interferência da comunidade é uma tradição que remonta há muito tempo. Na medida em que os médicos controlarem o parto, as mulheres não estarão no controle e a humanização do nascimento não irá acontecer. As mulheres continuarão desempoderadas e persistirá o desperdício de recursos profissionais e financeiros.

Ao contrário, as parteiras têm uma longa tradição de atendimento ao parto colocando a mulher no centro e no controle, enquanto oferecem um tipo de suporte que irá empoderar a elas e a suas famílias. Por isso, é de extrema importância, segundo Wagner, que os cuidados maternos básicos sejam providenciados pelas parteiras. Em países como a Nova Zelândia, a Holanda e os países escandinavos mais de 80% das mulheres vêem somente a parteira durante a gestação e o parto (dentro ou fora do hospital). Nesses países registra-se também o menor índice de mortalidade materno-infantil.

Pesquisas de relevo têm apresentado mais quatro vantagens para promover parteiras autônomas. A primeira é que não há mais dúvida alguma de que elas são as mais seguras assistentes para partos de baixo risco. Após rever a extensa literatura baseada em evidências a respeito da segurança oferecida pelas parteiras, um recente artigo numa revista obstétrica conclui: “A procura da literatura científica falhou na tentativa de descobrir um único estudo demonstrando resultados mais negativos com parteiras do que com médicos para mulheres de baixo-risco – as evidências mostram que os cuidados praticados por parteiras são tão seguros ou mais seguros do que aqueles praticados por médicos.”

A segunda vantagem das parteiras sobre os médicos é uma redução drástica de intervenções invasivas desnecessárias. As evidências científicas mostram que comparadas aos médicos, as parteiras fazem significativamente menos amniotomia (ruptura da bolsa amniótica), menos soro, menos indução, menos monitor fetal rotineiro, menos anestesia, menos episiotomia, etc.

A terceira vantagem está relacionada aos baixos custos. Apesar das variações de país em país, geralmente os preços das parteiras são inferiores aos dos médicos. E, naturalmente, à reduzida intervenção corresponde uma grande economia de custos.
Outra vantagem com a assistência das parteiras, freqüentemente desprezada pelos advogados do parto medicalizado, é a satisfação das gestantes e das parturientes.


Mais uma importante estratégia rumo à humanização do atendimento ao parto é sair do território dos médicos, o hospital, para dar à luz fora dele. Sempre houve e sempre haverá mulheres que preferem partos domiciliares planejados, mas com a maciça propaganda a respeito de quanto o parto é perigoso e de quanto o hospital é seguro, muitas mulheres caíram na falácia de que o parto domiciliar é perigoso. Numerosas pesquisas e meta-análises demonstraram a segurança do parto domiciliar planejado. A verdadeira questão então, não é esta, mas a liberdade e a santidade da família. Para mais de 80% das mulheres que não teve problemas médicos durante a gestação, o parto domiciliar planejado é perfeitamente seguro.

Todo médico, hospital ou organização médica que desencoraja mulheres de baixo risco a escolher partos domiciliares está negando direitos humanos básicos, sonegando informações não preconceituosas e limitando a liberdade das mulheres para escolher seus locais de parto. O nascimento de uma criança é um dos mais importantes acontecimentos na vida de uma família e, quando uma família escolhe um parto domiciliar, sua santidade deve ser honrada.

Hoje em dia uma das possibilidades que as mulheres têm para serem atendida por uma parteira e poder fazer uma experiência empoderadora do parto, é escolher um ‘Centro de Parto Alternativo’ ou Casa de Parto.

A primeira característica da Casa de Parto é estar livre de ingerências do hospital. Aqui a mulher está no controle e o tipo de cuidado que recebe é bastante diferente daquele oferecido no hospital. No hospital a ênfase cai na execução das rotinas, aqui é na individualidade e livre escolha da mulher. Os protocolos de uma Casa de Parto estão pautados na normalidade e não na patologia e a dor é entendida como uma função fisiológica normal que pode ser aliviada com métodos não-farmacológicos amplamente embasados nas evidências.

As Casas de Parto são seguras para mulheres de baixo risco? Esta é a pergunta chave na luta entre o modelo medicalizado e o humanizado de atendimento ao parto. As Casas de Parto representam uma grande ameaça para hospitais, para os médicos e para a inteira indústria de tecnologia obstétrica. Por ser o parto medicalizado extremamente caro, com internações pagas, obstetras altamente remunerados que usam tecnologia invasiva e cara, médicos e hospitais devem convencer o público e aqueles que controlam os fundos do sistema de saúde público de que seu modo é o único jeito seguro de atender partos. Assim, as Casas de Parto são classificadas como inseguras. Falando em segurança, o US National Birth Center Study não apresenta nenhum caso de mortalidade materna e um índice de mortalidade neonatal e intra-partum de 1.3 por 1000 nascidos vivos, uma taxa comparável com as taxas de partos hospitalares de baixo risco.

Para complementar esses estudos, há dados ulteriores a respeito da satisfação das mulheres: após um parto em Casa de Parto mais de 99% das mulheres disse que recomendaria a Casa de Parto para as amigas, e 94% disse que v

postado por: MAMAE DO KLAUSS 4:04 PM


O Nascimento dos Mamíferos Humanos

Todos os mamíferos dão à luz graças à súbita libertação de um fluxo de hormonios. Um deles, a ocitocina, desempenha um papel importantíssimo. É necessária para a contração do útero, para os bebés nascerem e as placentas saírem. Está implicada na indução do amor maternal: é o componente principal de um ‘coquetel de hormonios do amor’.

Os mamíferos podem liberar um hormonio de emergência denominado adrenalina, cujo efeito é interromper a liberação de ocitocina e é liberado quando existe perigo.

O fato de serem antagonistas explica a necessidade básica mamífera de dar à luz, sentindo-se seguros. Num ambiente selvagem, a fêmea não consegue dar à luz enquanto há possibilidade de perigo como na presença de um predador. Nesse caso é vantajoso liberar adrenalina, que faz lutar ou fugir; é também vantajoso parar de liberar ocitocina, para atrasar o nascimento.

Os mamíferos liberam adrenalina quando se sentem observados. É evidente que todos confiam numa estratégia especial para não se sentirem observados ao dar à luz: a privacidade.. A adrenalina também está implicada na regulação térmica. Num ambiente frio, um dos papéis da adrenalina é induzir o processo de vasoconstrição. Este fato explica que, para dar à luz, mamíferos necessitam estar num local suficientemente quente. Estas considerações sugerem que, para dar à luz, as mulheres devem sentir-se seguras sem se sentir observadas, num local suficientemente quente.

Embora a perspectiva fisiológica possa identificar facilmente as necessidades básicas das parturientes, pode também facilitar a compreensão das desvantagens específicas dos seres humanos no nascimento. Estas desvantagens estão relacionadas com o enorme desenvolvimento do neocórtex. É graças a ele que conseguimos falar, contar, ser lógicos e racionais. O nosso neocórtex é originalmente uma ferramenta que serve a velha estrutura cerebral como forma de suportar o nosso instinto de sobrevivência. O que interessa é que a sua atividade tem tendência a controlar estruturas cerebrais mais primitivas e a inibir o processo do nascimento (e também qualquer experiência sexual).

A natureza encontrou uma solução para ultrapassar a desvantagem humana no período do nascimento. O neocórtex deve estar em descanso, para que as estruturas cerebrais primitivas possam mais facilmente liberar as hormonios necessários. É por isto que as mulheres que dão à luz tem tendência a isolar-se do mundo, a esquecer o que aprenderam; fazeem o que nunca se atreveriam no dia a dia social (gritar, praguejar, etc.); podem encontrar-se nas posturas mais inesperadas; Algumas dizerem posteriormente: ‘Estava noutro planeta’. Quando a mulher se encontra ‘noutro planeta’ significa que a atividade do neocórtex foi reduzida. Esta redução de atividade é um aspecto essencial da fisiologia do parto humano.

Este aspecto da fisiologia implica que uma das necessidades básicas das parturientes é serem protegidas contra qualquer tipo de estímulo. De um ponto de vista prático, é útil explicar o que isto significa e analisar os fatores que podem estimular o neocórtex.

A linguagem racional é um desses fatores. Quando comunicamos com a linguagem, processamos aquilo que captamos com o neocórtex. Isto implica que se houver alguém assistindo ao parto, uma das principais qualidades deve ser a capacidade de manter um perfil baixo e permanecer silencioso e em particular evitar fazer perguntas diretas. Imagine uma mulher em trabalho de parto e já "noutro planeta". Atreve-se a gritar; atreve-se a fazer coisas que de outra forma nunca faria; esqueceu-se do que lhe ensinaram e dos livros que leu; perdeu o sentido do tempo e depois encontra-se na posição inesperada de ter de responder a alguém que pretende saber quando urinou pela última vez! Embora seja aparentemente simples, vai demorar muito tempo a redescobrir que um assistente de nascimento deve manter-se o mais silencioso possível.

Luzes fortes são outro fator que estimulante. Os eletroencefalógrafos sabem que a atividade cerebral que explora traços pode ser influenciada pelos estímulos visuais. Normalmente fechamos as cortinas e desligamos a luz quando pretendemos reduzir a atividade do nosso intelectual para dormirmos. Isso implica que, de uma perspectiva fisiológica, uma luz fraca deve em geral facilitar o processo do nascimento. Vai também levar algum tempo a convencer muitos profissionais da saúde de que se trata de um problema sério. É notável que logo que a parturiente se encontra ‘noutro planeta’ é espontaneamente levada a posturas que tendem a protegê-la de todos os tipos de estímulos visuais. Por exemplo, pode ficar de gatas, como se rezasse. Para além de reduzir as dores nas costas, esta postura comum tem muitos efeitos positivos, tais como eliminar a principal razão da angústia fetal (compressão dos grandes vasos ao longo da coluna) e facilitar a rotação do corpo do bebé.

A sensação de ser observada pode também ser apresentada como outro tipo de estímulação do neocórtex. A resposta fisiológica à presença de um observador já foi objeto de estudos científicos. Na verdade, é do conhecimento comum que todos nos sentimos diferentes quando sabemos que estamos a ser observados. Por outras palavras, a privacidade é um fator que facilita a redução do controle do neocórtex. É irónico que todos os mamíferos não humanos, cujo neocórtex não está tão desenvolvido como o nosso, tenham uma estratégia para dar à luz em privacidade; os que estão normalmente ativos à noite, como os ratos, têm tendência a pariri de dia, e outros, como os cavalos, ativos durante o dia, têm tendência para parir a noite. As cabras selvagens dão à luz nas áreas mais inacessíveis das montanhas. Os chimpanzés, nossos parentes próximos, também se afastam do grupo. A importância da privacidade implica que existe uma diferença entre a atitude de uma parteira que se coloca em frente a uma parturiente e a observa, e outra que se limita a sentar-se perto dela. Também implica que deveríamos ser relutantes ao introduzir qualquer dispositivo que possa ser considerado uma forma de observar, seja uma câmara de vídeo ou um monitor fetal.

Na verdade, qualquer situação com probabilidades de disparar uma liberação de adrenalina pode também ser considerada um fator com tendência a estimular o neocórtex.

As dificuldades mecânicas do nascimento do HomoSapiens também se relacionam com o desenvolvimento do cérebro. No final da gravidez, o menor diâmetro da cabeça do bebé (que não é exactamente uma esfera) é mais ou menos o mesmo que o diâmetro maior da pélvis da mãe (que não é exatamente um cone). O processo evolucionário adoptou uma combinação de soluções para atingir os limites do que é possível.

A primeira solução foi tornar a gravidez o mais curta possível, para que, de certa forma, o bebé humano nasça prematuramente. Além disso descobrimos recentemente que a mãe grávida pode, até certo ponto, adaptar o tamanho do feto ao seu próprio tamanho, modulando o fluxo sanguíneo e a disponibilidade de nutrientes ao feto. Por isso é que as mães de aluguel menores com embriões de pais genéticos maiores parem bebés menores do que se espera.

De um ponto de vista mecânico, a cabeça do bebé deve estar o mais flexibilizada possível, para que o menor diâmetro se apresente antes da espiral descendente para sair da pélvis materna. O nascimento dos seres humanos é um fenómeno complexo e assimétrico, sendo a pélvis materna mais larga transversalmente à entrada e mais larga longitudinalmente à saída. Um processo de ‘modulação’ pode mudar ligeiramente a forma do crânio do bebé, se necessário.

Ao mencionar as particularidades mecânicas do nascimento humano, não podemos evitar referências e comparações com os chimpanzés, nossos parentes próximos. A cabeça de um chimpanzé bebé no fim da gravidez ocupa um espaço significativamente menor na pélvis materna, e a vulva da mãe está perfeitamente centrada, para que a descida da cabeça do bebé seja o mais simétrica e direta possível. Parece que desde que nos separamos dos outros chimpanzés e ao longo da evolução da espécie hominídea tem havido um conflito entre o caminhar ereto sobre dois pés e, ao mesmo tempo, uma tendência para um cérebro cada vez maior. O cérebro do Homo moderno é quatro vezes maior que o cérebro da nossa antepassada Lucy. Existe um conflito na nossa espécie porque a pélvis adaptada à postura ereta deve ser estreita para permitir que as pernas se aproximem sob a coluna vertebral, o que facilita a transferência de forças das pernas para a coluna vertebral durante a corrida. Uma postura ereta é o pré-requisito para o desenvolvimento do cérebro. Conseguimos transportar pesos pesados na cabeça quando estamos levantados. Os mamíferos quadrúpedes, não. Aparentemente, é por isso que o processo de evolução encontrou outras soluções que não uma pélvis feminina alargada para tornar possível o nascimento do ‘primata com o cérebro grande’: quanto mais rapidamente corriam os nossos antepassados, mais probabilidades tinham de sobreviver.

Ambientes culturais
Outra diferença entre os humanos e os outros mamíferos é que os efeitos de um processo de nascimento perturbado no comportamento materno são muito mais evidentes a um nível individual em mamíferos não humanos.

Inúmeras experiências confirmaram que o comportamento maternal de mamíferos não humanos pode ser dramaticamente perturbado pela anestesia geral. Há quase um século, na África do Sul, Eugene Marais fazia experiências para confirmar a sua intuição de poeta segundo a qual existe uma ligação entre a dor do nascimento e o amor materno.(1) Estudou um grupo de 60 gamos Kaffir, sabendo que não havia registo de sequer uma mãe que rejeitasse uma cria desde há quinze anos. Administrou às fêmeas em trabalho de parto um pouco de clorofórmio e éter, reparando que as mães posteriormente se recusavam a aceitar os recém-nascidos. O comportamento maternal foi também muito perturbado pela anestesia local. Na década de 1980, Krehbiel e Poindron estudaram os efeitos da anestesia epidural entre as ovelhas em trabalho de parto.(2) Os resultados deste estudo resumem-se facilmente: quando as ovelhas dão à luz com anestesia epidural, não tratam dos cordeiros.

Hoje em dia, são comuns as cesarianas na medicina veterinária, particularmente entre os cães. Isto é possível desde que os seres humanos compensem um comportamento maternal frequentemente inadequado, prestem assistência ao processo da amamentação e forneçam substitutos comerciais do leite canino. Os efeitos de uma cesariana no comportamento maternal dos primatas estão bem documentados, porque diversas espécies de macacos são utilizados como animais de laboratório. É este o caso dos ‘macacos-caranguejeiros’ e dos macacos Rhesus.(3) Nestas espécies, as mães não tomam conta dos bebés após uma cesariana; o pessoal do laboratório tem de espalhar as secreções vaginais no corpo do bebé para induzir o interesse da mãe pelo recém-nascido.

Não é necessário multiplicar os exemplos de experiências com animais e observações por veterinários e cientistas que lidam com primatas para convencer ninguém de que uma cesariana, ou simplesmente a anestesia necessária para a operação, pode alterar dramaticamente o comportamento materno dos mamíferos em geral.
Neste aspecto os seres humanos são especiais. Milhões de mulheres em todo o mundo tomam conta dos bebés após uma cesariana, um parto com epidural ou um ‘parto com sedação total’.

Sabemos por que o comportamento dos seres humanos é mais complexo e mais difícil de interpretar que o comportamento dos outros mamíferos, incluindo primatas.(4) Os seres humanos desenvolveram formas sofisticadas de comunicar. Falam. Criam culturas. O seu comportamento é influenciado menos diretamente pelo equilíbrio hormonal e mais diretamente pelo ambiente cultural. Quando a mulher descobre que espera um bebé, pode antecipar a demonstração de alguns comportamentos maternais. Mas isto não significa que não possamos aprender com os mamíferos não humanos. As respostas comportamentais espetaculares e imediatas indicam as questões que deveríamos levantar sobre nós mesmos.

Quanto aos humanos, perguntas devem incluir termos como “civilização” ou “cultura”. Por exemplo, se os outros mamíferos não cuidam dos bebés após uma cesariana, devemos em primeiro lugar perguntar-nos: ‘Qual o futuro de uma civilização nascida de cesariana?’

Os ambientes culturais não só atenuam os efeitos de uma alteração no equilíbrio hormonal no processo de nascimento como podem também interferir nele. Todas as sociedades que conhecemos perturbam os processos fisiológicos que rodeiam o nascimento.

Interferem através dos assistentes de nascimento que frequentemente estão ativos e até invasivos. Originalmente, as mulheres tinham provavelmente uma tendênciaa parir junto à mãe ou a outra mulher familiar experiente. São estas as raízes das parteiras. Uma parteira é originalmente uma figura maternal. Num mundo ideal, a nossa mãe é o protótipo da pessoa com quem nos sentimos seguros sem nos sentirmos observados nem julgados. Em muitas sociedades, o assistente do nascimento tornou-se um guia.

A transmissão de crenças e rituais é a forma mais poderosa de controlar o processo do nascimento até a saída da placenta. Mencionemos apenas, como exemplo, a crença de várias culturas segundo a qual o colostro é impuro ou prejudicial, uma substância a extrair e eliminar. Esta atitude negativa relativamente ao colostro implica que, imediatamente após o nascimento, o bebé deva estar nos braços de outro que não a mãe. É esta a origem de um ritual generalizado e enraizado, que é o de nos despacharmos para cortar o cordão.

São muitas as crenças e rituais que perturbam os processos fisiológicos. E também são várias as crenças que reforçam a atitude relacionada ao colostro. É este o caso das crenças partilhadas por diversos grupos étnicos da África Ocidental segundo as quais a mãe não deve olhar para os olhos do recém-nascido, para que ‘os maus espíritos não entrem no corpo do bebé’.

Devemos tomar consciência de que o ambiente cultural do séc XXI transmite as suas próprias crenças, particularmente no que tange o estabelecimento do parto natural. Estas crenças também contrariam aquilo que podemos aprender a partir da fisiológia e do comportamento dos outros mamíferos.

Por exemplo, é comum comparar as parturientes com atletas como corredores de maratonas, a quem se aconselha que consumam grandes quantidades de carboidratos, proteína e fluidos antes de iniciar um grande esforço físico.(5) Muitos assistentes de nascimento são influenciados por estas comparações e incentivam as mulheres a comer coisas como massa no início do trabalho de parto ou quando este ja foi estabelecido. Na verdade, quando a 1º fase avança, é sinal de que os níveis de adrenalina estão baixos. Depois a parturiente tem tendência a ficar imóvel. Quando todos os músculos junto ao esqueleto estão em descanso, como quando a mãe está deitada sobre um lado ou de 4, gasta-se muito pouca energia. Além disso, quando o trabalho de parto evolui facilmente, é sinal de que o neocórtex está em descanso. O neocórtex é o outro órgão do corpo humano cujo principal combustível é a glucose. Comparar uma parturiente com uma atleta da maratona pode levar a outros erros, tal como sobrestimar a necessidade de água. Na verdade, as parturientes não perdem muita água, uma vez que os níveis do hormonio pituitária de retenção de água (vasopressina) são altos e os músculos junto ao esqueleto não estão ativos. Uma bexiga cheia é outro preço a pagar pela analogia com a maratona. Da mesma forma, as mulheres em trabalho de parto são frequentemente aconselhadas a andar. No entanto, o fato de uma mulher em trabalho de parto não sentir necessidade de se levantar e andar é bom sinal. Significa que o nível de adrenalina está provavelmente baixo.(6) Durante a primeira fase de um parto fácil e rápido, as mulheres estão muitas vezes passivas, por exemplo de 4 ou deitadas. Sugerir qualquer tipo de atividade muscular pode ser contraproducente, até cruel.

Quais as vantagens evolucionárias deste leque de crenças e rituais que tendem a desafiar o instinto protetor maternal durante um curto período de tempo considerado crítico no desenvolvimento da capacidade de amar?

No contexto científico atual, fazemos perguntas desta forma, porque respostas podem ser sugeridas. Desde a altura em que a estratégia básica da sobrevivência de grupos humanos era dominar a Natureza e outros grupos humanos, foi uma vantagem tornar os seres humanos mais agressivos e capazes de destruir a vida. Por outras palavras, foi uma vantagem moderar a capacidade de amar, incluindo o amor à Natureza, o respeito pela Mãe Terra. Foi uma vantagem perturbar os processos fisiológicos no período do nascimento, particularmente na 3ª fase do trabalho de parto, que é hoje em dia considerada crítica no desenvolvimento da capacidade de amar. Ao longo dos milénios tem havido uma seleção de grupos humanos segundo o potencial de agressão que apresentam. Todos somos frutos dessa seleção.

Estas considerações devem ser tidas em conta no contexto do séc XXI.(7) Estamos numa altura em que a Humanidade tem de inventar estratégias de sobrevivência radicalmente novas. Hoje em dia estamos a chegar a uma percepção dos limites das estratégias tradicionais. Temos de levantar novas questões: “como desenvolver esta forma de amor que é o respeito pela Mãe-Natureza?” Para parar de destruir o planeta, necessitamos de uma unificação da aldeia planetária.

Precisamos mais do que nunca das energias do Amor. Todas as crenças e rituais que desafiem o instinto maternal protetor e agressivo estão perdendo as vantagens evolucionárias. Temos novos motivos para perturbar a fisiologia o menos possível. Temos novos motivos para redescobrir as necessidades básicas das mulheres em trabalho de parto e bebés recém-nascidos.

Este ponto de viragem na história da humanidade ocorre na altura em que a história do nascimento também se encontra num ponto de viragem. Embora as sociedades tenham tido no passado uma tendência para controlar este evento, a situação é radicalmente nova no início do séc XXI.(8) Até há pouco tempo, a mulher não podia ser mãe sem liberar um fluxo de hormonal, que constitui na verdade um complexo coquetel de hormonios do amor. Na fase atual do parto industrializado, a maior parte das mulheres tem bebés sem confiar neste coquetel. Muitas têm uma cesarea que pode ser decidida e executada antes do trabalho de parto. Outras bloqueiam a liberação de hormonios naturais fiando-se em substitutos (ocitocina sintética e anestesia epidural). Até as que dão à luz sem medicação recebem um agente farmacológico para fazer sair a placenta numa altura crítica da relação mãe-bebé.

Uma vez que é urgente melhorar a nossa compreensão da fisiologia, aparece um método prático como ajuda adequada para redescobrir as necessidades das parturientes. Pode ser resumido na frase: Quanto ao trabalho de parto, há que eliminar o que é humano e atender às necessidades do mamífero. Isso implica que o 1º passo deve ser livrarmo-nos de todas as crenças e rituais que, por milénios, perturbaram o processo fisiológico em todos os ambientes culturais conhecidos. Implica que a atividade do neocórtex, cujo enorme desenvolvimento é um traço exclusivamente humano, tem de ser reduzida. E que a linguagem humana deve ser utilizada com muita cuidado.
As necessidades mamíferas básicas parar parir são privacidade e segurança.

É comum alegar que o parto deve ser ‘humanizado’. Mas a prioridade deveria ser ‘mamiferizar-lo' ou 'desumanizar' o nascimento.

1 - Marais EN. The soul of the white ant. Methuen. London 1937.
2 - Krehbiel D, Poindron P. Peridural anaesthesia disturbs maternal behaviour in primiparous and multiparous parturient ewes. Physiology and behavior 1987; 40: 463-72.
3 - Lundbland E.G. Hodgen G.D. Induction of maternal-infant bonding in rhesus and cynomolgus monkeys after caesarian delivery. Lab. Anim. Sci 1980;
4 - Odent M. A Cientificacao do amor. Saint Saint Germain 2002.
5 - Odent M. Laboring women are not marathon runners. Midwiferytoday 1994; 31: 23-26.
6 - Bloom SL McIntire DD, et al. Lack of effect of walking on labor and delivery. N Engl J Med 1998;
7 - Odent M. O camponês e a parteira. Editora Ground. SP 2003.
8 - Odent M. The Caesarean. Free Association Books. London 2004.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 3:29 PM


Humanização do Parto: Qual o Verdadeiro Significado?
Ricardo Herbert Jones - Médico Ginecologista e Obstetra

HUMANIZAR (AURÉLIO)
[De humano + -izar.]
V. t. d.
1. Tornar humano; dar condição humana a; humanar.
2. Tornar benévolo, afável, tratável; humanar.
3. Fazer adquirir hábitos sociais polidos; civilizar.
4. Bras. CE Amansar (animais).
V. p.
5. Tornar-se humano; humanar-se

Recentemente em acalorada discussão com um professor de obstetrícia da minha originária faculdade de Ciências Médicas me deparei com um fato que me pareceu digno de aprofundamento.

Este insigne professor foi autor há alguns meses de um artigo em um jornal local de grande circulação a respeito da criação de Casas de Parto no Brasil. O artigo era a respeito de "Maternidade Segura" e tratava do assunto pela conhecida ótica médica que discursa exaustivamente sobre a questão da segurança. Neste artigo ele tenta demonstrar o perigo de se criar Casas de Parto porque "nunca se pode ter certeza de que um nascimento seja isento de risco", terminando com uma acusação ao Ministério da Saúde afirmando que este tipo de "experiência" só serve para fazer economia às custas da segurança dos pacientes. Citava lugares do mundo onde os partos são exclusivamente hospitalares e "esquecia-se" de citar locais como a Holanda onde mais de 30% dos partos se situam fora dos hospitais e sob o cuidado de parteiras.

Quando fui aluno deste professor sempre me chamou a atenção a sua postura intervencionista, tecnológica, seu posicionamento claramente favorável às abordagens científicas e técnicas do parto e sua especial simpatia pela obstetrícia americana. Alguns anos antes, ao candidatar-se a cargo eletivo na Cooperativa Médica local, calcou sua plataforma médica na questão do combate aos "profissionais alheios à medicina" que estariam exercendo atividades na obstetrícia, numa alusão clara à atividade das enfermeiras obstétricas. Colegas me relatavam que no seu plantão no Hospital da Universidade ele proibira que enfermeiras da graduação realizassem qualquer tipo de atendimento obstétrico.

Bem, nada disso é surpreendente. Estas coisas todas eram do meu conhecimento. Sabia que ele como professor de obstetrícia reproduzia todo um arcabouço filosófico que sustenta e embasa o proceder ritualístico da obstetrícia contemporânea. Entretanto o que me deixou espantado é que nossa conversa iniciou-se com a seguinte frase por ele pronunciada: "- Dr, as coisas que aqui serão discutidas nada tem a ver com sua posição em relação à Humanização do Nascimento, até porque sou claramente favorável a ela."

Quando o meu honorável professor proferiu esta sentença eu fiquei pensando: existe alguma coisa que não está bem explicada a respeito da humanização do nascimento. Se este professor considera-se um defensor do Parto Humanizado, sendo que ele é o responsável técnico de uma maternidade que tem 80% de cesarianas, que trabalha como professor de obstetrícia e forma os obstetras que vão trabalhar posteriormente nesta mesma maternidade (e o faz há mais de 20 anos), escreve e discursa contra as Casas de Parto e não aceita o atendimento de obstetrizes em partos de baixo risco, o que sou eu então?

Percebi que existe muita confusão conceitual nesta área, e que se quisermos realmente modificar estas questões temos que definir claramente qual a nossa proposta de modelo, o que queremos dizer com humanização, quais os nossos objetivos e as nossas metas. Assim como a discussão do "normal e natural", a discussão do "humanizar" faz-se necessária, sob pena de colocarmos em um mesmo saco gatos, cães, lebres, coelhos. Não é admissível que "humanização" torne-se um chavão vazio, como tantos outros que conhecemos, em que todos o utilizem sem a menor responsabilidade e sem ter consciência exata do que estão tratando.

O QUE É HUMANIZAÇÃO DO PARTO
Existe um movimento no mundo inteiro no sentido de reforçar estas teses. Aqui no Brasil temos a Rede pela Humanização do Parto e Nascimento que é nossa principal ferramenta de aglutinação de profissionais de várias áreas interessados na modificação do atendimento à mulher no ciclo gravido-puerperal. Entretanto percebo que ainda não possuímos uma definição concreta e precisa do que entendemos por humanização, a ponto de um médico que me parece claramente um "intervencionista" tradicional auto-proclamar-se "humanista". Porque?

Na minha ótica, (e desde já pretendo colocar que se trata apenas de um viés absolutamente pessoal e que apenas pretende iniciar um debate sobre a questão) quando abordamos este assunto temos que compreendê-lo na sua origem, nas raízes, fugindo tanto quanto possível da pueril superficialidade que aparece aos nossos olhos. O equívoco que a mim parece evidente nas palavras do meu professor é que ele não tem conhecimento do que seja o projeto de humanização no seu sentido amplo e profundo.

Quando ele fala em humanizar está se referindo a tratar com mais gentileza e "humanidade" as pacientes nos Centros Obstétricos; refere-se a uma abordagem menos agressiva e mais racional do manejo das internações. Porém eu considero humanização do nascimento algo muito mais profundo do que isso. Vai além de fazer um centro obstétrico mais arejado, enfermeiras e atendentes sorridentes ou colocar vasos de flores nos quartos.

Humanização do Nascimento tem a ver com a posição em que a cliente/parturiente ocupa neste cenário. Neste sentido humanizar tem a ver com feminilizar. Enquanto o nascimento for manejado de forma masculina ele nunca será verdadeiramente humanizado. É inadmissível que um fenômeno tão intrinsecamente feminino seja gerenciado por pressupostos tão marcadamente masculinos! Se a paciente se mantém como objeto, como indivíduo passivo, como alguém sobre a qual recaem as forças cegas e desorganizadas da natureza, necessitando por isso um cuidado intensivo no sentido de salvá-la do seu destino cruel, então nem 1 milhão de flores, rosas, jasmins, cravos, orquídeas e nem milhares de sorrisos benevolentes tornarão este parto um parto humanizado.

O que torna um parto humanizado, ao contrário do manejo alienante que encontramos nas nossas maternidades, é o protagonismo conquistado por esta mulher. A posição de cócoras, a presença do marido/acompanhante, a diminuição de algumas intervenções sabidamente desnecessárias, o local do nascimento, etc. não são suficientes para tornar um nascimento "feminino e humanizado". É necessário muito mais do que isso.

Não existe humanização do nascimento com mulheres sem voz. É preciso que esta mulher, consciente da sua posição como figura central no processo, faça valer seus direitos, sua autonomia e seu valor. O que torna um obstetra (ou profissional do parto) humanista ou não, é a capacidade de estimular a participação, o envolvimento efetivo e a condução deste processo a quem de direito: a mãe. Sem estes requisitos de nada adiantam maternidades lindas, belas, arejadas, limpas, assépticas, com enfermeiras gentis e sorridentes.

Usando como exemplo a questão prisional, uma penitenciária não se torna humana simplesmente varrendo as celas e oferecendo roupas limpas aos detentos. Nem tampouco com carcereiros gentis e sorridentes. Ela se torna humana se a lei é bem aplicada, se não ocorre injustiça na aplicação das penas, se os presos tem os seus direitos respeitados.

Desta forma, muito mais importante que a humanização da forma, é necessário instituir a humanização dos conceitos. É fundamental construir uma visão nova, que resgate este protagonismo perdido pela tecnocracia dogmática e fechada do cientificismo religioso. Sem este delineamento do que concebemos por humanização ficaremos todos tratando por um mesmo termo conceitos completamente diversos.

Enfim, o projeto de humanização do Parto e Nascimento inicia-se por uma definição clara do que entendemos por "humanizar", para que a partir de conceitos firmes e sólidos possamos construir um modelo mais justo e adequado para as mulheres, sua família e seus filhos.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 1:46 PM


'A cesariana representa mais de 30% dos nascimentos em Portugal'

"É do conhecimento público que a forma de encarar a cesariana, evoluiu significativamente nos últimos vinte anos”…É assim que começa o prefácio do livro “A Cesariana” de Michel Odent, escrito pelo Prof.Jorge Branco.
Mas será que é do conhecimento público os riscos.versus.benefícios desta forma cirúrgica de nascer?
Será que existe no público, um sentido de reflexão sobre este assunto?
Até que ponto o público conhece os factos, tem interesse em saber e participar numa decisão responsável e consciente sobre esta temática?
Seguramente, não são públicas as taxas de cesariana de todos os hospitais portugueses:públicos e privados…
Também não são públicos os critérios que definem a tomada de decisão para um nascimento por cesariana, nem os procedimentos de atendimento ao trabalho de parto e o parto, que possam ajudar a evitar o desfecho em uma cesariana.
Pública é sem dúvida a ideia que se tem vindo a generalizar, de que nascer por meio de uma cesariana, é…NORMAL!!!!
Temos assistido a um crescente aumento das taxas deste procedimento cirúrgico desde os anos 80 , com uma passividade e naturalidade, tanto por parte dos profissionais de saúde, como por parte das grávidas e suas famílias, de uma forma inconcebível, numa sociedade desenvolvida e supostamente civilizada…
Se bem que seja um fenómeno característico da sociedade ocidental e países desenvolvidos, como se explica que em 2006, a taxa de cesarianas tenha sido,
- de 22 % em Espanha
- de 23 % no Reino Unido
- de 19.6 % em França
- superior a 30 % em Portugal nos hospitais públicos
- superior a 65 % em Portugal nos hospitias privados,quando se recomenda que essa taxa:
- se situe entre 10 a 15%,pela Organização Mundial de Saúde
- seja inferior a 30 % , segundo o Ministério da Saúde Português??
E porquê preocuparmo-nos com estes dados?
Simplesmente porque há riscos acrescidos numa cesariana, muito importantes para a saúde da Mãe, do bebé, e em futuras gravidezes, que não podem ser desvalorizadas, ocultadas ou ignoradas…
Os riscos de uma cesariana quando comparada com um parto vaginal, são os seguintes:

Riscos para a Mãe:
- morte materna: 5-7 vezes superior
- internamento em cuidados intensivos: 2 vezes superior
- hemorragias importantes: 6 a 8 vezes superior
- maior tempo de internamento
- necessidade de voltar a ser internada: duas vezes superior
- infecção e tomada de antibióticos: risco alto*
- dor: risco muito alto*, para dor prolongada nos dias e semanas seguintes ao parto
- complicações pós-operatórias: 1-5 % dos casos de cesariana
- experiência negativa de nascimento: risco muito alto*.Alta probabilidade de não ter acompanhante no nascimento do filho, nem suporte emocional, nem sentir qualquer domínio sobre a situação
- menor contacto imediato com o bebé, não poder vê-lo ou pegá-lo: risco muito alto*

Riscos para o bebé:- risco de morte: 1.77 por cada 1000 recém-nascidos, contra 0.62 por cada 1.000 recém-nascidos por via vaginal
- corte cirúrgico acidental: risco alto*
- problemas respiratórios: risco moderado a alto* (antes das 39 semanas)
- possibilidade de não ser amamentado: risco alto a muito alto*
- possibilidade de desenvolver asma em criança e / ou adulto: risco alto*

Riscos para a Mãe, em futuras gravidezes:
- aumento da infertilidade: risco alto a muito alto*
- fertilidade reduzida por opção da Mãe: risco alto*
- aumento de gravidez ectópica: risco moderado*
- aumento de problemas com a placenta (acreta, abrupta ou prévia): risco moderado*
- ruptura uterina: risco moderado*

Riscos para o bebé, em futuras gravidezes:
- morte antes do termo da gravidez: risco moderado*

*Classificação do risco
(segundo estudos compilados no artigo “What every women needs to know about Cesarean Section” retirado do www.chilbirthconnection-org):
Risco muito alto:1.000-10.000 em cada 10.000 mães ou bebés
Risco alto:100-999 em cada 10.000 mães ou bebés
Risco moderado:10-99 em cada 10.000 mães ou bebés
Poderá o motivo de orgulho nacional: as baixas taxas de mortalidade e/ou morbilidade materna e infantil, justificar e validar a prática desta cirurgia obstétrica?
NÃO!!! Simplesmente pela análise de riscos já descriminada, que inevitavelmente irão fazer subir as ditas taxas, pelas quais tanto lutámos ao longo destas décadas!
O valor recomendado pela O.M.S. é precisamente encontrado, fazendo um rigoroso estudo do balanço risco-benefício, do nascimento cirúrgico, sendo apoiado por diversos estudos de outras entidades (ex.Althade and Belizán,2006**)
Será possível reduzir as taxas de cesariana?
Claro que sim! Até quanto, é que é mais difícil saber, bem como quem está verdadeiramente interessado em fazer um esforço por isso…
O Plano Nacional de Saúde (lançado em 2004), estipula que até 2010, a taxa nacional seja reduzida para 20%
A Maternidade Dr.Alfredo da Costa conseguiu reduzir de 34 % em 2006, para 29.8% no 1ºsemestre de 2007¹, tendo implementado algumas estratégias para tentar reduzir mais esta taxa.
O Hospital de S.João pretende chegar aos 25 %¹ (conseguiu reduzir em 10%, esta taxa, de 2001 para 2002, e agora pretende reduzir mais 2.2%)
Lamentavelmente o Presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos e Director de Serviço de Obstetrícia do Hospital de Sta.Maria, Prof.Luis Graça, não acha “excessivamente importante a preocupação pela baixa ‘forçada’ do número de cesarianas”¹ e acredita que é possível baixar 2 a 3 %, o que situaria a nossa taxa nacional na ordem dos 30%...
O que será necessário para baixar as taxas de cesariana?
- divulgação dos riscos versus benefícios, baseados em estudos científicos publicados, a todos os profissionais de saúde
- divulgação dos referidos riscos versus benefícios a toda a população, em especial ás grávidas de uma forma esclarecedora
- existência de um consentimento informado, compreendido e assinado pela grávida, quando se efectue este procedimento cirúrgico (de forma não emergente)
- um acompanhamento da gravidez de baixo risco por parte dos profissionais de saúde, que promova com segurança e clareza, a via vaginal como primeira opção de parto
- sistemas de controlo e auditoria interna nos hospitais (públicos e privados), que possibilitem que cada cirurgia seja discutida em equipa, chegando á conclusão clara de quais os critérios que justificam a cirurgia
- uma mudança na forma como se encara o parto, ao nível do estudo da medicina, para que este volte a ser vivido como um processo fisiológico e não patológico.

E para quê?
- claro benefício para a saúde da Mãe e do bebé
- claro benefício em gravidezes posteriores
- melhoria na experiência de nascimento para a maioria das mulheres
- melhoria na taxa de sucesso de amamentação e do primeiro contacto Mãe-bébé
- diminuição dos custos associados ao procedimento cirúrgico, e pós-operatório
- diminuição de todos os custos que advêm das possíveis complicação e riscos anteriormente descritos, para o sistema de saúde, e para as Mães/Famílias (internamento mais prolongado, cuidados intensivos, intervenções adicionais, medicação a curto e/ou médio-longo prazo,leite artificial,etc).

Num país com tanta dificuldade em gerir os seus recursos de assitência médica, com baixíssimas taxas de sucesso na amamentação e com graves dificuldades financeiras, esta situação dá que pensar…
Vale a pena proporcionarmos um melhor começo de vida aos nosso filhos e à nossa sociedade, com mais saúde para as mulheres e para as crianças!
Marta Cruz
Vogal da direcção da Humpar- Associação Portuguesa para a Humanização do Parto
Fontes utilizadas neste documento:
www.childbirthconnecting.org
www.maternitywise.org
“A Cesariana:operação de salvamento ou industria do nascimento”, de Michel Odent, Miosótis, Setembro de 2005
¹“Pais & Filhos”, edição de Novembro de 2007, artigo: ‘Menos cesarianas, mais qualidade’,texto de MªJoão Amorim,pág-44-46
“Pais & Filhos”, edição de Janeiro de 2006, artigo: “Sai uma cesariana!”, texto de mªJoão Amorim, pág.13-16
** Althabe F.,Belizán JF,Caeserean section:The paradox.The Lancet 2006:368:1472-3

postado por: MAMAE DO KLAUSS 1:42 PM


Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

* Parteira, profissão que renasce*
Unindo ciência e tradição, enfermeiras obstétricas ganham espaço na assistência ao parto
LÚCIA NASCIMENTO

*Teresa Martins em atendimento a parturiente.
Às seis horas da manhã de uma sexta-feira, Helka enfrentava as dores do trabalho de parto num congestionamento da Marginal Tietê, na capital paulista. Chegou a pensar em correr para o hospital mais próximo, mas desistiu. Seu primeiro filho, Yan, hoje com 9 anos, nascera num parto cheio de intervenções médicas desnecessárias, e agora ela queria um atendimento mais humanizado, sem correria nem tratamento impessoal.

Quando finalmente chegou à Casa de Parto de Sapopemba, na zona leste da cidade, as enfermeiras obstétricas vieram recepcioná-la na porta, chamando-a pelo nome ¿ apesar de ela ter estado ali apenas uma vez. Helka recebeu massagens e tomou chás para aliviar a dor e logo a bolsa estourou.

Após encontrar uma posição confortável para o parto ¿ ela preferiu ficar na vertical ¿, sentiu-se pronta e segura para o grande momento. A todo instante as enfermeiras explicavam os movimentos do bebê e o porquê de cada dor, tranqüilizando- a. Às sete e quarenta Rav nasceu e, antes mesmo de ter o cordão umbilical cortado, foi para o colo da mãe.

No imaginário cultural brasileiro, as figuras de assistência ao parto se resumem a médicos, em hospitais, e parteiras, em áreas pobres do interior do país. Uma figura ainda pouco conhecida, mas que tem ganhado o reconhecimento do governo e da sociedade, é a das parteiras profissionais ¿ enfermeiras obstétricas que atuam nas grandes cidades e vêem o parto como um evento natural, que, se estiver bem preparado e livre de complicações, pode muito bem ocorrer fora de um hospital.

Como herança das parteiras tradicionais ¿ que aprenderam o ofício na prática ¿, essas profissionais sabem da importância de tratar a mulher como protagonista no parto, respeitando seus desejos e aliviando as dores com conforto emocional, técnicas de relaxamento e chás. Diferentemente do que acontece na zona rural, entretanto, elas foram formadas em universidades para fazer o parto de gestantes de baixo risco e* *são tão capacitadas quanto os médicos obstetras para esse atendimento.*

Locais de atuação
O bairro de São Mateus, no extremo leste da capital paulista, tem 400 mil habitantes e é um dos mais pobres da cidade. Lá, o Hospital Geral de São Mateus, pertencente ao Sistema Único de Saúde (SUS), possui um Centro de Parto Natural (CPN), inaugurado em dezembro do ano passado. Nessa unidade, as enfermeiras obstétricas prestam assistência em suítes individuais, que garantem privacidade e segurança, pois têm à disposição todos os equipamentos necessários para cuidar da mãe e do bebê.

A criação de locais acolhedores em hospitais de regiões pobres das grandes cidades é uma conquista, na opinião de Teresa Sá Martins, enfermeira obstétrica e supervisora do CPN de São Mateus. Segundo ela, ali a gestante é incentivada a levar um acompanhante, que pode ficar a seu lado durante o trabalho de parto e o nascimento. Além disso, a mulher tem liberdade de
movimentos, escolhe a posição mais confortável, se alimenta se tiver vontade e não precisa ficar recebendo soro. Pode, ainda, utilizar uma banheira de hidromassagem para relaxar nos intervalos entre as contrações.

No Centro de Parto Natural, como o próprio nome indica, as intervenções médicas só ocorrem quando surgem complicações. A filosofia é permitir que a mulher se sinta à vontade e deixe seu organismo agir livremente, sem uso de hormônios para acelerar o processo, sem cortes para facilitar a saída do bebê (a chamada episiotomia) e com a utilização de métodos alternativos de
relaxamento.

Márcia, de 21 anos, que teve seu segundo filho em junho deste ano no CPN, declara: "Foi muito bom. As enfermeiras são cuidadosas, deixam comer e andar, não tiram o bebê de perto e também não colocam a gente no soro". Foi esse atendimento diferenciado que Helka Luciana de Azevedo, assistente de fotografia, de 31 anos, buscou na Casa de Parto de Sapopemba.

Diferentemente dos CPN, que ficam dentro de hospitais, as casas de parto tanto podem estar acopladas a um hospital como apenas ter um de referência, para onde são encaminhadas as gestantes que apresentam algum problema durante o trabalho de parto. Helka, no entanto, apesar de ter ficado satisfeita com o tratamento, tem uma queixa: "Bem que podiam ampliar o número de casas de parto, colocando uma em cada região da cidade".

"Hoje, há apenas cinco casas de parto funcionando a pleno vapor no país: a do Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte; a de Juiz de Fora (MG); a Casa de Parto David Capistrano Filho, no Rio de Janeiro, e duas na cidade de São Paulo: a Casa de Maria e a Casa de Parto de Sapopemba", afirma Isa Paula Hamouche, técnica da área de saúde da mulher do Ministério da Saúde. E a
principal razão apontada para a pequena quantidade de locais como esses é a falta de disposição dos governos estaduais e municipais.

Por essa razão, as que existem têm sido cada vez mais procuradas. A Casa de Parto David Capistrano Filho, no bairro de Realengo, na pobre região oeste da cidade do Rio de Janeiro, já atendeu a mais de 500 partos desde que foi inaugurada, em 8 de março de 2004. Como não é acoplada a um hospital, uma ambulância fica de plantão 24 horas por dia, para transportar gestantes que apresentem algum problema até a Maternidade Alexander Fleming, que fica a 8 quilômetros do local. Nesses casos, a equipe do hospital ¿ onde também trabalham algumas das enfermeiras obstétricas da casa de parto ¿ é imediatamente acionada.

Riscos
Além do atendimento em casas de parto e em centros de parto natural, as enfermeiras obstétricas (e também alguns médicos) prestam assistência em casa. Essa modalidade, no entanto, ainda é vista com cautela no Brasil. Em países como Holanda e Inglaterra, o parto domiciliar é incentivado, chegando, respectivamente, a 40% e 47% do total.

Para a socióloga e diretora da organização não-governamental Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), Jacqueline Pitanguy, dar à luz em casa não significa abrir mão do que a tecnologia pode oferecer. Se o bebê está bem posicionado e o pré-natal foi bem feito, não há problema.

A classe médica, em geral, se mostra contrária. "Pode-se fazer parto domiciliar? Sim, mas não se deve. Os riscos são raros, talvez de menos de 1%, mas quando surgem podem ser fatais para o bebê e até para a mãe. Mesmo com uma ambulância à disposição, numa cidade como São Paulo são muitas as variáveis. A mulher precisa saber que corre um risco", afirma Mario Macoto Kondo, diretor técnico do Centro Obstétrico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP).

Nem todos, no entanto, vêem problema no fato de dar à luz fora do ambiente hospitalar. A começar pelo Ministério da Saúde: "É um direito da mulher escolher onde vai ter seu bebê. No mundo inteiro se discute o movimento de descentralizaçã o do atendimento ao parto e a saída desse procedimento da maternidade. Em alguns momentos, o aparato hospitalar pode até ser negativo para a mulher", afirma Isa Hamouche.

"O modelo que deve vingar é o que une a casa de parto ¿ com assistência de enfermeiras obstétricas, ambiente familiar e privacidade ¿ a um hospital, onde a total segurança também está garantida", enfatiza Aníbal Faúndes, coordenador de estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pesquisador do Centro de Pesquisas Materno-Infantis de Campinas (Cemicamp).

De acordo com Simone Grilo Diniz, médica e professora do Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP, embora o parto ainda seja descrito por muitos médicos como um evento de risco, as mais recentes evidências científicas mostram que, ao contrário, para mulheres que não apresentam problemas de saúde ou alterações durante a gravidez não há nenhum perigo. "O máximo que se puder fazer para não atrapalhar o processo fisiológico, melhor. Isso não significa que não se deva estar atento. A maioria das mulheres só precisa de vigilância ¿ ver se mãe e bebê estão bem ¿ e privacidade" , declara.

Essa idéia também é defendida por quem presta assistência a partos domiciliares. "O ambiente acolhedor do lar facilita a liberação de oxitocina e de endorfina, hormônios necessários para que o parto aconteça de forma natural", argumenta Heloísa Lessa, enfermeira obstétrica que atua no Rio de Janeiro e membro da Rede pela Humanização do Parto e do Nascimento (ReHuNa).

Cláudia Orthof, médica e também membro da ReHuNa, trabalha em equipe com Heloísa e garante que nenhuma gestante que possa apresentar complicações terá o parto feito em casa. Por precaução, em todos os nascimentos um obstetra e um pediatra são contatados e ficam em alerta para qualquer eventualidade.

Para Vilma Nishi, enfermeira obstétrica que já realizou mais de 80 partos domiciliares na cidade de São Paulo, o maior problema é a mulher não admitir fraquejar. "Quando combino de atender um parto em casa, já aviso à futura mãe: se eu disser 'agora é hora de ir para o hospital', não há por que discutir. Nunca tive de sair correndo, mas há casos em que a gestante apresenta algum bloqueio ou se sente insegura. Nessas circunstâncias, vamos para um hospital." Por via das dúvidas, Vilma mantém um esquema de
referência montado. Como a maioria das mulheres que atende possui plano de saúde, orienta as gestantes para que façam o pré-natal com ela e também com um médico do convênio. "Se for preciso ir para o hospital, haverá alguém para ¿ como elas dizem ¿ ajudar no 'plano B'", declara.

Heloísa completa que ter um esquema de referência por perto é fundamental: "Se estou a três horas de um hospital, o risco de atender em casa pode ser grande. Mas, se puder chegar lá em cinco minutos, não há problema. O parto domiciliar é seguro, desde que os limites sejam respeitados" .

Convergência
Um ponto a respeito do qual todos concordam é a necessidade de melhorar o pré-natal, para evitar que complicações imprevistas atrapalhem o andamento do trabalho de parto em mulheres saudáveis e sem alterações. "Uma coisa que pesa muito é o vínculo que se estabelece durante o período de gravidez. O pré-natal, na minha opinião, tem de ser feito de 15 em 15 dias, com pelo
menos uma hora e meia de consulta. Quando se procede dessa maneira, trabalhando todas as questões envolvidas, a opção pelo parto domiciliar é praticamente uma conseqüência", afirma Heloísa.

"A questão mais importante é o preparo da paciente, que muitas vezes não acontece de forma adequada. Num pré-natal bem-feito, é possível identificar fatores que podem levar a riscos no trabalho de parto. Mas, de modo geral, o enfoque é muito tecnicista, e a dimensão humana acaba sendo deixada de lado.
Essa é uma deficiência, hoje, em obstetrícia. O médico faz exames brilhantes e se esquece do aspecto emocional", declara Mario Kondo.

A convergência entre as duas classes, entretanto, se resume praticamente ao pré-natal. Em 2004, por exemplo, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) tentou impedir, sem sucesso, o funcionamento da Casa de Parto David Capistrano Filho, e entrou com uma ação na Justiça que pedia o fechamento da instituição.

Algumas décadas atrás, o antagonismo não era tão acentuado. Até 1970, as parteiras profissionais eram formadas na faculdade de medicina, no curso de obstetrícia, e trabalhavam em conjunto com os médicos. A partir de meados desse ano, porém, quando a profissão se tornou uma especialização da enfermagem e houve a proliferação dos planos de saúde, os conflitos hierárquicos passaram a ser constantes. "Acaba então a parceria que existia nas clínicas particulares. Um fator relevante foi a má remuneração feita pelos convênios, que incentivou os médicos a aumentar o número de gestantes que atendiam, dando preferência à cesárea ¿ prática na qual enfermeiras obstétricas não podem atuar. No fim da década de 1980, a rivalidade entre as classes já era extremamente crítica", esclarece Dulce Gualda, coordenadora do curso de obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e umanidades (EACH) da USP Leste, que, criado em 2005, trouxe de volta a possibilidade de formação universitária de parteiras profissionais.

"Hoje, há muitas mulheres morrendo de causas evitáveis no Brasil, e isso é bastante grave. Os médicos, de maneira geral, não confiam nas enfermeiras obstétricas para a assistência a gestantes de baixo risco, mas como confiar na classe médica como um todo se o índice de mortalidade materna é absurdo?", questiona Heloísa.

Mortalidade materna
É realmente impressionante: 75 brasileiras, em cada grupo de 100 mil mulheres, morrem por complicações do parto ou durante a gravidez. As estimativas, entretanto, são de que esse número chegue a 130, se forem considerados os casos em que a morte não é registrada como decorrência de complicações durante ou após o parto. Em países desenvolvidos, como a Inglaterra, são cerca de dez mortes por 100 mil.

Em parte, o índice de mortalidade materna se deve à elevada taxa de cesáreas no país, que ultrapassa os 15% recomendados pela OMS.* *As estatísticas falam por si mesmas: no Brasil, pouco mais de 3% das grávidas têm seus bebês em casas de parto ou na própria residência. Entre as que dão à luz no ambiente hospitalar, o parto natural também não é o preferido: de acordo com o Ministério da Saúde, 39,71% fazem cesáreas no sistema público de saúde e, nos hospitais particulares, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), esse percentual sobe para 79,7%.

Esses dados ¿ alarmantes ¿ colocam o Brasil na posição de vice-líder mundial em número de cesáreas, atrás apenas do Chile. "Esse tipo de parto eleva o risco de infecções, de hemorragia e até de a mulher precisar retirar o útero", alerta Aníbal Faúndes. Além de aumentar as probabilidades de complicações graves como essas, e ainda de pneumonia e septicemia, a cesárea traz, para cerca de um terço das mães, problemas como febre, hematoma, infecção no trato urinário ou no útero, ferida cirúrgica e paralisia do intestino ou da bexiga.

"A comparação entre bebês nascidos de cesáreas por razões não-médicas e os de partos vaginais também comprova que, no primeiro caso, é quase cinco vezes maior o risco de haver necessidade de cuidados intensivos ou semi-intensivos, ou ainda de assistência respiratória" , alerta Simone.

Além disso, deve-se considerar que há diversos procedimentos médicos invasivos realizados rotineiramente no ambiente hospitalar, como raspagem de pêlos, lavagem intestinal, uso de soro e de hormônios para acelerar o processo, episiotomia e jejum, entre outros. "A maioria dessas intervenções é imposta, ou seja, a mulher nem é consultada. Tudo isso acabou por transformar o parto natural que acontece em hospital em uma coisa horrenda, levando muitas grávidas a optar pela cesárea, por acreditar que é menos
dolorida", lamenta Simone.

A perspectiva é que as mudanças iniciadas no modelo de assistência ao parto no Brasil se consolidem lentamente, graças, inclusive, à reabertura do curso de obstetrícia destinado à formação de parteiras profissionais. De acordo com Dulce Gualda, os alunos da EACH (também há homens na graduação: de 60 matriculados, oito são do sexo masculino) recebem "uma visão de parto num contexto mais amplo, de cultura, de sociedade, de envolvimento político, de transformação do sistema. É um curso que começa com a saúde e depois entra na doença, diferentemente do enfoque tradicional, que tende a se fixar nesta última". A absorção desses profissionais no mercado de trabalho ainda é, contudo, uma incógnita.
http://www.sescsp. org.br/sesc/ revistas_ sesc/pb/artigo

Perguntas ao médico
Ricardo Herbert Jones
Tem uma aula inteira que eu dou sobre "Antropologia do Adoecimento" baseada num autor que eu gosto muito chamado Françoise Laplantine e que se baseia nos modelos de compreensão do fenômeno mórbido, numa análise antropológica e transcultural.
Só por curiosidade, a homeopatia é entendida, nesta visão particular, como "Medicina Endógena", assim como ... acreditem, a Psicanálise. Ambas são as formas ocidentais desta chamada medicina "endógena", ou interna, em que os fenômenos de adoecimento são entendidos como processos originários do indivíduo, através de sua suscetibilidade. No caso da homeopatia, ocorre um desequilíbrio da energia vital, sendo o tratamento pelo similimum (o medicamento cujas ações no homem saudável são as mais semelhantes possíveis à doença específica); na psicanálise os fenômenos são entendidos como intrapsíquicos, e o tratamento será pelo "simílimum" psicanalítico, ou seja, a fala. O contrário se dá com a alopatia, que procura sempre FORA do indivíduo a causa de seus males, e por isso os ataques às bactérias, fungos, vírus e até mesmo o absurdo de acreditar que o HIV está na causa da AIDS. Escrevi um texto para o jornal chamado "É Nervos, Doutor", que fala um pouco desta questão. Se alguém quiser, eu envio.
É por essa razão que algumas pessoas se espantam quando digo que algumas formas de ervas, infusões e chás são muito mais próximas da Alopatia do que da homeopatia, mesmo que pareçam "medicina natural". É pela sua essência; o que elas, em última análise, pretendem curar.
A questão toda é o modelo de entendimento. Eu costumo afirmar que "tampa de caneta moída" pode ser medicamento homeopático, desde que a gente saiba o que pretende "curar", e aqui a palavra "curar" só pode ser usada no sentido psicanalítico de "mudança", e não no sentido médico ocidental de "extermínio da doença".
Se eu fosse procurar um médico para tratar do meu filho (ou de mim mesmo) eu perguntaria basicamente como é o seu entendimento de doença; isto é, como ele compreende as modificações orgânicas (a fisiopatologia) inserida na historicidade de um indivíduo.
Em outras palavras, eu faria para ele algumas perguntas indiscretas, tipo:
"Doutor, para quê o meu filho está com febre?"
"Doutor, qual a razão de ele estar com esta doença, e qual o sentido disso?"
"Doutor querido, o que o senhor está tratando? Uma bactéria? Não seria melhor então contratar um biólogo?"
"Querido médico... como o senhor conceitua doença e bem-estar? Como pode ter certeza que estar "doente" não é o melhor para o meu filho agora?"
"Caríssimo doutorzinho, uma vez eu não passei de ano e aquilo me doeu muito, mas minha professora disse que isso "seria bom para mim", mesmo sendo um 'remédio amargo'. Isto, que o senhor conceitua como 'doença', não poderia estar inscrito dentro deste mesmo modelo, isto é, algo amargo mas necessário?
"O senhor acha as doenças inúteis? Não existe razão mais profunda para o seu aparecimento? Alguém que adoece não obtém nenhuma vantagem com esse processo?"

E por aí vai...
Eu encheria o cara de perguntas sobre a compreensão última que ele possui sobre os conceitos fundamentais (e frequentemente negligenciados) de doença.
E agiria assim para poder saber, afinal. O QUÊ estamos tratando, e PARA QUÊ.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 8:46 PM


Ana Karenina
Ricardo Herbert Jones

Vou responder apenas por mim, porque não tenho procuração para falar por mais ninguém.
Robbie Davis-Floyd fez uma extensa pesquisa com médicos humanistas e um dia vai publicar.. algo tipo "A Gênese de um Humanista"...
Digo apenas que o que leva alguns profissionais a "sairem da caixinha" do modelo obstétrico contemporâneo segue o modelo "Ana Karenina".
Isto é... como disse Ana, de Tolstoi, a respeito dos casamentos, os médicos são tecnocráticos por diversas e infinitas razões, mas são humanistas por uma razão única: por alguma circunstância muito pessoal na sua vida resolveram observar o "lado oculto da lua", e perceberam que o nascimento não se limita a um evento médico, mas que ultrapassa esta definição. É um evento que engloba a vida inteira de uma mulher, transformando-se em um evento radicalmente tansformador. Diante de uma epifania qualquer (que no meu caso eu escrevi no capítulo quarto do meu livro "Memórias do Homem de Vidro") descortina-se um mundo completamente diferente daquele modelo gélido e acinzentado que recebemos na escola, tanto na medicina quanto na enfermagem. Por alguma razão recôndita, um fato externo (que para a maioria das pessoas poderia passar despercebido) desperta uma suscetibilidade que sequer tínhamos consciência. Algo se conecta. As engrenagens cósmicas começam a girar e fazer conexão com os fatos do cotidiano. Por um breve lapso de tempo o universo faz sentido, e percebemos no nascimento humano uma conexão com uma teleologia subitamente clara. Analogias superiores se fazem presentes, e percebemo-nos imersos num universo de congruência. A partir daí os fatos se sucedem quase que automaticamente, pois que as energias focalizadas apresentam uma força quase que irresistível.
O resultado deste tipo de contato com um mundo diverso é variável, mas normalmente assustador.
Colocamo-nos em contato com resistências das quais sequer tínhamos idéia, mas somos compelidos a voltar à fonte desta experiência.

No final colocamo-nos numa situação de difícil solução.
Para cada passo adiane no processo de modificação, um cravo é preso aos seus punhos, pela inconformidade do modelo vigente.
Entretanto, parece-nos impossível voltar atrás, pois que, depois de observar as maravilhas escondidas no rosto de uma mulher que pariu em liberdade, não há mais como fechar os olhos a esta visão.

A Cura da Pré-eclampsia

08/09/2006
BBC - Cientistas americanos anunciaram uma descoberta que pode levar à criação de um teste e uma cura para a pré-eclâmpsia, mal que afeta mulheres grávidas e pode causar hipertensão e problemas renais.

A equipe do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos descobriu que mulheres com pré-eclâmpsia acumulam altas concentrações de duas proteínas vários meses antes de desenvolver o problema.

A pesquisa, publicada no New England Journal of Medicine, foi concluída depois de analisados resultados de exames de sangue de 4,5 mil mulheres grávidas.

Especialistas ressalvaram, porém, que a perspectiva de ter um teste antecipado e a eventual cura ainda é distante.

A pré-eclâmpsia é causada por um defeito na placenta, que fornece nutrientes e oxigênio para o feto. O problema ocorre no período final da gravidez.

Uma em dez
Até uma em dez mulheres grávidas pode ter pré-eclâmpsia, e uma em 50 sofre de graves problemas de saúde em decorrência da doença.

A incidência no Brasil é de cerca de 10%, segundo o Consenso Brasileiro de Cardiopatia e Gravidez, e é a principal causa de morte materna no país.

Os cientistas ainda não compreendem totalmente o que causa o defeito da placenta, embora se saiba que o risco esteja ligado a fatores como ocorrência de casos prévios numa família, ter idade acima de 40 anos. A primeira gravidez também apresenta um risco maior.

Os pesquisadores que trabalharam no estudo descobriram que 120 mulheres que participaram dos testes e desenvolveram pré-eclâmpsia mais tarde na gravidez tinham no sangue concentração alta da forma solúvel de duas proteínas - endoglina e tirosina-quinase 1 tipo fms - em comparação com as que não desenvolveram pré-eclâmspia.

Níveis elevados das proteínas podem ser encontrados até três meses antes do desenvolvimento da pré-eclâmpsia.

Cura
Pesquisadores dizem que não ficou esclarecido exatamente como o desequilíbrio causou a pré-eclâmpsia, embora tenham sugerido que isso pode privar vasos sangüíneos de nutrientes essenciais, levando-os à debilidade e à morte.

"Esta descoberta parece ser um passo importante no desenvolvimento da cura da pré-eclâmpsia", disse o diretor do Instituto Nacional de Saúde, Elias Zerhouni.

"Isto também pode proporcionar a base para se prever se uma mulher vai ou não desenvolver o problema."gado a fatores como ocorrência de casos prévios numa família, ter idade acima de 40 anos. A primeira gravidez também apresenta um risco maior.

Os pesquisadores que trabalharam no estudo descobriram que 120 mulheres que participaram dos testes e desenvolveram pré-eclâmpsia mais tarde na gravidez tinham no sangue concentração alta da forma solúvel de duas proteínas - endoglina e tirosina-quinase 1 tipo fms - em comparação com as que não desenvolveram pré-eclâmspia.

Níveis elevados das proteínas podem ser encontrados até três meses antes do desenvolvimento da pré-eclâmpsia.

Pesquisadores dizem que não ficou esclarecido exatamente como o desequilíbrio causou a pré-eclâmpsia, embora tenham sugerido que isso pode privar vasos sangüíneos de nutrientes essenciais, levando-os à debilidade e à morte.

"Esta descoberta parece ser um passo importante no desenvolvimento da cura da pré-eclâmpsia", disse o diretor do Instituto Nacional de Saúde, Elias Zerhouni.

"Isto também pode proporcionar a base para se prever se uma mulher vai ou não desenvolver o problema."

Saída do Teatro
Ricardo Herbert Jones

Minha Conversa com Álex
Na saída do teatro não pude me conter e me aproximei do menino de suspensórios. Sua figura mirrada havia galvanizado minha atenção durante o patético espetáculo que acabara de assistir. Ele se chamava Álex, viria a saber depois, o mesmo nome de um querido colega, já falecido. Carregava a merendeira azul em uma das mãos, enquanto sua mãe segurava seu braço fininho, orientando-lhe o caminho a seguir por entre as pessoas que se aglomeravam no Hall. Tinha umas perguntas a lhe fazer, e intuía que talvez ele contivesse a resposta. Alcancei-o quase na saída e puxei a alça plástica de sua merendeira. Um pouco assustado ele parou, voltando seu olhar imediatamente para sua roliça mãe.

- Menino, por favor, eu queria apenas lhe fazer umas perguntas...
- Álex. Me chamo Álex, falou ele, colocando claramente o acento tônico sobre a primeira vogal.
- Pois Álex... minha pergunta pode parecer um pouco rebuscada, mas acredito que possas me oferecer uma resposta. Não quero tomar seu tempo, pois sei que tens deveres de casa ainda para serem feitos. Entretanto, preciso de um auxílio.

Sua mãe fitou-o com um misto de severidade e brandura, dizendo com os olhos que ela cobraria as tarefas, assim que chegassem em casa.

- Minha dúvida Álex, continuei eu, é sobre a criação de alianças. Isto é: como é possível compatibilizar as divergências pessoais, as diferentes visões de uma determinada idéia, com a construção de um objetivo comum. Como seria possível livrar-se do personalismo ideófago e ao mesmo tempo respeitar o desejo, natural e humano, de sobressair-se?

O burburinho das pessoas que aguardavam um táxi se fazia ainda intenso. Obriguei-me a ficar bem próximo do menino, para poder escutar-lhe a voz miúda. Mulheres de estola passavam ao meu lado aspergindo-me Chanel 5, enquanto homens austeros gesticulavam freneticamente para os poucos carros que passavam em frente ao teatro. Nada havia de muito claro na cena, mas os
porteiros continuavam ali, e a menina de vestido rosa olhava em volta, procurando improváveis compradores de balas. O pequeno Max olhou-me nos olhos como que aguardando o suspiro final de minha frase. Sua mãe ajeitou-lhe o suspensório antes que iniciasse a falar. Colocou o braço esquerdo sobre a merendeira que jazia pendurada em seu ombro, e falou.

- É difícil responder, mesmo para uma criança como eu. Não tenho respostas prontas que se possam encaixar em qualquer situação. Posso apenas falar de algumas experiências que vivi, e outras poucas que li. Os grupos que se formam em torno de idéias normalmente o fazem em função de uma focalização pulsional. É o desejo, através desta energia incorpórea, que se
expressa nessas idéias. Quando encontramos alguém envolvido em qualquer atividade e se entregando com apaixonamento, podemos ver as cores da libido colorindo sua mirada. É todo desejo, pulsionante e fulgurante. Algo na tarefa fez com
que estratos muito sutis e profundos de seu inconsciente encontrassem um ponto de deságüe. Assim aparecem as paixões, os idealistas, os sonhadores, os visionários. Tamanha é sua adesão física e espiritual a tal tarefa, que muitos se imantam desta paixão, fazendo com que outras pessoas se aproximem para sorver um pouco desta energia contagiante. Qualquer partido
político verdadeiro, grupo científico ou espiritual brota deste caldo. É da natureza humana a necessidade de buscarmos em conjunto soluções para os nossos dilemas.

Percebi no pequenino Álex a eloqüência e a facilidade de expressão do meu velho colega Max. Era incrível como gesticulava graciosamente seus dedinhos magros ao mesmo tempo em que articulava suas idéias. Seus olhos volitavam pelo ambiente, e na busca das idéias flutuantes suas pupilas giravam na brancura de uma esclerótica cerúlea. Procurou novamente meu rosto e
continuou sua explicação.

- Assim sendo, é natural que, unidos por um desejo em comum, muitas pessoas se juntem trazendo consigo idéias e noções díspares sobre a vida, seus valores básicos. Alguns procuram a transformação social através de uma luta insana contra quem considera os "inimigos", não importa quem sejam eles.
Esses elementos são os perigosos, porque jogam em seu desejo um fervor destrutivo, que se compraz em produzir o embate, a aniquilação dos adversários e a luta sem tréguas. Essas pessoas normalmente têm uma visão mitológica do mundo e uma estrutura perversa. Falta-lhes castração, limite.
Muitas vezes estão no seio das religiões, pregam a verdade e o perdão, mas são capazes das maiores atrocidades em nome da "sua verdade". Mas não se iluda; todo o grito do corpo emana de Eros, e as ações destruidoras brotam da mesma energia que as angelicais.

Lembrei-me automaticamente de Silas, o fiel servo albino de Aringarosa, no livro de Dan Brown. Sua figura sinistra era para mim o exemplo mais próximo e simples da perversão escondida sob o manto da "verdade" e do "bem".
Recordei também de outra pessoa, capaz de perversão semelhante ao jogar na fogueira alguém que havia acabado de passar por uma tragédia, mas meus pensamentos foram interrompidos pela fala do pequeno menino dos suspensórios.

- Os pensamentos redentores, salvacionistas e messiânicos são inexoravelmente intrincados no nosso pensar, e por uma razão muito clara: é muito mais fácil pensar de forma maniqueísta. É muito mais difícil observar os fatos sob ângulos diversos e vieses por vezes confusos. Nossa busca da "verdade suprema" é claramente um desejo de alienação e de conforto: dói demais se posicionar e entender o mundo com o pensar de outrem.

Resolvi interromper para perguntar algo. Queria deixar claro à mãe do pequeno que eu não iria incomodá-lo por muito tempo. Ela não largou o braço do menino, como que a deixar claro que não permitiria um abuso.

- Queres dizer, então, que todos nós carregamos um pouco deste fel? Somos ligados às formas infantis de compreender a verdade de forma unívoca e ausente de matizes? Não há salvação nem racionalidade bastante para evitar tais conflitos?

- Não há como fugir de tua condição humana, respondeu ele. Não existe fuga para tuas incongruências e tuas imperfeições recalcitrantes, a não ser através do burilamento dos milênios. Entretanto, a busca da racionalidade é um objetivo nobre e digno de ser alcançado. As idéias devem ser superiores aos ideólogos. O que estes grupos necessitam fazer é democraticamente
estabelecer normas e determinações que possam frear a natural expansão egóica de seus participantes, para que o movimento não venha a se esfacelar.
Mesmo que seja uma tarefa complexa e trabalhosa, esta atitude está nos alicerces de todas as idéias vitoriosas na história da humanidade.

"As idéias devem ser superiores aos ideólogos". Quem me havia dito esta frase há alguns anos? Alguém que havia se preocupado com as incipientes corridas fálicas que, na época, se iniciavam sorrateiramente. Mas aparentemente era alguém que as entendia como sub-produtos naturais e compreensíveis de qualquer processo nascente. Percebi que Alex falava destes percalços como inevitáveis, desde que o material disponível para as transformações humanas era a frágil carne de que todos somos feitos.
Não há como pular etapas essenciais no processo, pois que não somos vestais infensos às veleidades terrenas. Mas o que ele queria dizer com "burilamento dos milênios"? O pequeno Álex continuou:

- Normalmente formam-se dois grupos fundamentais nestas agremiações: os conservadores e os progressistas. Esta divisão, que é ao mesmo tempo arbitrária e natural (por ser universal) não se apresenta em compartimentos estanques, como marcas indeléveis de caráter. Não. São voláteis e freqüentemente têm suas divisões conceituais movidas e debatidas. Por outro lado os conservadores terão sempre um compromisso forte com o núcleo ideológico básico, não tolerando que este centro seja atingido. São guardiões da "pureza doutrinária", defensores dos "princípios fundadores", escudeiros dos valores originais que criaram o grupo. Estão freqüentemente no centro das decisões e recebem os ataques da periferia, que tenta bombardear sua conduta austera e inflexível. Os conservadores temem a dissolução pela deterioração do núcleo, por eles tão bem guardado. Os judeus
ortodoxos são um bom exemplo, mas existem outros, tão inúmeros quanto infinitos forem os modos de organização em torno de idéias.

Do outro lado da fortaleza organizam-se os progressistas. Enxergam a idéia inicial como um processo transformador, mas têm pressa. Acreditam que o núcleo ideológico prende-se demasiado às convenções, e esperam que as suas idéias transformadoras possam se alastrar e contagiar outros corações e mentes. São inquietos, insatisfeitos, angustiados. Querem as "bem-aventuranças" agora, e para todos. O Reino dos Céus sem limites.
Sentem na carne a dor de ver quantos ainda não conheceram a "sua" verdade. Os progressistas estabelecem acordos e conchavos com grupos de fora; às vezes até com inimigos declarados. Acreditam que é necessário estabelecer pontes de contato, para que as idéias tenham um percurso mais livre. Pensam que a "pureza" das palavras dos ancestrais precisa de revisões periódicas - o
que deixa os conservadores irados - e por isso são também freqüentemente chamados de "revisionistas". Entendem que os laços que estabelecem com os que pensam de forma diversa produzem um aprimoramento "étnico" das idéias, numa miscigenação imprescindível para o progresso.

É do choque destes dois grupos essenciais que se cria a energia que produz o crescimento das propostas. Teses centrais atacadas por antíteses que surgem da periferia. Do choque ocorre a síntese, que por sua vez será uma nova tese, que aguarda os petardos inevitáveis do cinturão periférico de inconformidade. Já assim dizia aquele senhor alemão... como é o nome mesmo?

- Hegel, respondi.

O menino sorriu envergonhado. Faltava-lhe um dente de baixo, e sua mão direita automaticamente cobriu esta falha. Olhou para a mãe que também lhe sorria, agora um pouco menos ansiosa.

- Uma última questão, Álex. Queria que me dissesse como compatibilizar estas posições díspares. Como colocar na mesma mesa os conservadores e os progressistas? Como estabelecer uma agenda única, que seja fundada em conceitos claros e consensuais? Como criar um núcleo que permita as divergências, mas continue sendo um foco de propulsão de criatividade?
Como compatibilizar estas diferenças e manter-se unidos?

Alex olhou para os lados e uma mulher mais apressada acabou por empurrá-lo para trás. Por instantes sua mãe perdeu-o do contato de sua mão firme, mas imediatamente voltou a segurá-lo. Estávamos perto demais da porta e percebi que um grupo de táxis havia se aproximado da saída do teatro, e que a pequena multidão se encaminhava celeremente para eles. Não houve
formação de fila, e a disputa se fez da maneira mais primitiva possível: colocar o corpanzil na frente e fazer uma barreira. Lembrei que alguns grupos usam esta tática para fazer valer suas idéias, mas o momento não era oportuno para tergiversar sobre estas metáforas. Percebi Álex distanciando-se de mim atrás de uma barreira de vestidos pesados e mastodontes apressados.
Consegui escutar sua última frase, antes que desaparecesse junto com sua mãe no vagalhão de corpos na saída do teatro:

- Convide todos para uma reunião e compre bastante brigadeiro e guaraná!

Estava sorrindo e o branco de seus olhos contrastava com o brilho azul de seus olhos arregalados. Sim, agora percebia que seus olhos tinham escleróticas azuladas, da mesma cor de meus jeans surrados. Sua merendeira, igualmente azul, dobrou a esquina, driblando as pessoas apressadas, e ao meu lado os motoristas de táxi abriam portas, de onde caíam canções melosas de
amores perdidos.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 8:32 PM


LISTA DE VANTAGENS DO PARTO HUMANIZADO
Ricardo Herbet Jones

1.. Proporcionar ao seu filho a verdadeira experiência do nascer;
2.. Ter você a verdadeira experiência de dar à luz;
3.. Poder participar do nascimento do filho;
4.. Interação mãe-bebê imediata;
5.. Não TER cicatriz nem no corpo, nem no espírito;
6.. Possibilidade de dores abdominais por aderências, infinitamente menor do que em uma cesariana.
7.. Risco de hemorragias e infecções reduzido;
8.. Recuperação pós-parto praticamente imediata;
9.. BEBÊ recebe um aviso biológico de que sua hora de nascer está chegando e, portanto, prepara-se melhor para esse momento, vindo ao mundo com menos problemas de adaptação;
10.. Fica-se muito menos tempo no hospital, acarretando menos custos financeiros e emocionais;
11.. Acarreta menos riscos físicos e emocionais para mãe e bebê;
12.. A dor das contrações é muito menor do que as dores contínuas por pelo menos 2 ou 3 meses de um pós parto cirúrgico;
13.. É mais ecológico, pois dispensa todo o aparato moderno descartável que emporcalha o planeta;
14.. Menor índice de depressão pós-parto;
15.. Conexão espiritual com todas as nossas ancestrais;
16.. Oportunidade de um orgasmo indescritível e transcendental;
17.. Poder olhar seu filho olho-no-olho nos primeiros minutos de existência dele e perceber uma luminosidade ao seu redor;
18.. Poder cantar as glórias de ser uma mulher que confia em seu corpo e na fisiologia do parto;
19.. Ser um exemplo positivo pra mudar o paradigma tecnocrático vigente;
20.. Sentir-se ativa no processo;

Para quem tem seu filho em casa existem mais vantagens ainda!!

21.. Não ver seu bebê nas mãos de um monte de gente antes de chegar no seu colo;
22.. Saber que ele nunca vai ser 'roubado';
23.. Seu bebê nunca vai ser alimentado com fórmula (mamadeira);
24.. Risco de infecção hospitalar 0%;
25.. Não ser confinada em uma cama e poder ir onde desejar;
26.. Poder comer e beber à vontade ao seu gosto tudo o q quiser;
27.. Poder ficar sozinha e no seu canto até quando desejar ter companhia e ajuda;
28.. Poder ficar na posição que desejar: em pé, deitada, andando, de cócoras, de quatro, pendurada na rede ou no abajur!;
29.. Estar na sua cama confortável com seu parceiro e providenciar algumas carícias pra acelerar o parto;
30.. Não ser monitorada por máquinas;
31.. Não ter o cordão umbilical cortado antes do tempo;
32.. Poder promover o silêncio e o escurinho necessário ao momento mágico;
33.. Não ser coagida à uma cesárea!;
34.. Nunca ter sua veia perfurada pra 'soro' ou outras drogas sem sua permissão;
35.. E, é claro, não ter os efeitos colaterais dos mesmos no seu corpo ou do seu bebê;
36.. Em caso de VBAC, você vai ter certeza que VAI SER UM VBAC mesmo!!
37.. Não precisar sair do seu 'porto seguro' para ir à uma instituição hospitalar, principalmente de madrugada!;
38.. Poder ir ao banheiro sem pedir permissão;
39.. Poder usar suas próprias roupas ou nenhuma!;
40.. Ter somente quem você deseja por perto;
41.. Fazer o que desejar com sua placenta: comer, usar como adubo para árvores, etc...
42.. Não ter avaliação de colo uterino depois do parto;
43.. Não ter ninguém te falando para tomar vitaminas, por está com cara de atropelada (depois de ficar a noite inteira em TP, alguém fica pronta pra uma festa?)
44.. "Vacinação/Imunização" natural no momento da passagem do bebê pelo canal vaginal. Explico: o bebê vive por nove meses em um ambiente estéril e, ao nascer de parto normal, recebe anticorpos da mãe. Assim ele já chega ao mundo imunizado. Já com a cesariana o bebê passa de um ambiente estéril para as mãos dos médicos etc., sem essa proteção natural da mãe...
45.. A compressão do canal vaginal espreme o bebê, mal comparando, como uma bucha, sai líquido pelos ouvidos, narinas. Ele já nasce sequinho, pronto para respirar.
46.. Psicólogos afirmam que o "trabalho" de parto é um processo de esforço importante para o bebê, um despertar de traços como perseverança, garra, vontade. O bebê não é passivo no parto normal, é ativo.
47.. O processo do parto desperta uma cadeia de reações hormonais (é o bebê que manda mensagens para o cérebro da mãe, e este desencadeia as reações hormonais do trabalho de parto) responsáveis pela descida do leite, pela diminuição do tamanho do útero para que volte ao normal e outros tantos efeitos. É um processo perfeito.
48.. A capacidade de entrar em contato com nossos medos e dores é trabalhada. Vivemos num tempo em que isso é visto como indesejável e há toda sorte de artifícios para se evitar o medo e a dor. Só que essa fuga trouxe para as pessoas apenas inabilidade, porque os sentimentos dolorosos não deixaram de existir na vida de ninguém.
49.. A maturação final do pulmão do bebê acontece durante o processo de trabalho de parto.
50.. Num parto normal você se conecta com as energias da natureza. Sabe o que isso significa? Não? Talvez tenhas que passar por esta experiência.

Realidade Violenta
Ricardo Herbert Jones

Esse tipo de comportamento dos médicos e do resto da equipe é compreensível e esperado. Quando digo "compreensível" não quero dizer que seja justificável, mas penso que que devemos ter um pouco de atenção às circunstâncias e contextos em que estas cenas ocorrem. Médicos são treinados a acreditar na ritualística do nascimento, da mesma forma como os antigos acreditavam piamente na possibilidade de uma sequência aparentemente interminável de rezas concatenadas influir nos mais variados desígnios humanos: uma série pré-estabelecida de rituais criados para conectar as engrenagens cósmicas com a nossa vontade, e através dos nossos atos. Os rituais como impedir o marido de entrar, colocá-la deitada, gritar com a paciente, infantilizá-la, fazer episiotomias, desrespeitar seus desejos, tudo isso faz parte do modelo que trazemos do nosso ensino. Não somos produzidos em série aprendendo a ver pacientes como sujeitos; isso complicaria muito o ensino, e não temos professores capacitados para isso. Mesmo que alguns mestres ingenuamente digam que aulas de bioética, de saúde da família ou outras estejam nos novos currículos, o que os alunos aprendem não está nas aulas ou nos polígrafos: eles aprendem vendo seus professores, e o exemplo que recebem é o da intervenção, da coisificação e o da proteção do profissional atrás do manto da tecnocracia.
Somente a mudança da sociedade pode mudar essa situação.
Quando mais maridos reclamarem no Ministério Público contra as proibições de permanecerem ao lado de suas companheiras, talvez a situação comece a mudar. Quando mais mulheres vencerem a muralha do medo que as impede de ter um parto domiciliar, e resolverem ter seus partos em seu do domínio, talvez os hospitais percebam que estão a perder clientes.
Somente quando as mulheres "pegarem em armas", como Robbie dizia, teremos reais mudanças. Somente com mulheres corajosas, que tomem posse de seus corpos e almas, poderemos transformar uma realidade de violência contra o feminino.

Liquidificador
Ricardo Herbert Jones

Criticar alguém avaliando "de fora" é muito fácil, baseando-se apenas em valores racionais.
Não é nossa função aqui estabelecer o que é "certo ou errado", mas oferecer suporte afetivo e informação de qualidade para aquelas mulheres que desejam ingressar na maternidade através do parto normal. Acreditamos acima de tudo na excelsa capacidade feminina de gestar e parir, assim como reconhecemos os benefícios fantásticos e duradouros do parto humanizado para mães e bebês.
Não podemos ser a Gestapo do Parto Humanizado, e talvez caiba repetir bastante isso ainda. O que conta num nascimento são outros valores tantos, que talvez a racionalidade seja a última a ser questionada
Acalentar é o que podemos trazer de novo nesse cenário, pois cabe a nós também a tarefa de "feminilizar" o nascimento, trazendo os valores do feminino à discussão.
Agora mesmo me lembrei disso.
Minha secretária passou os últimos 4 dias com frebre, em casa.
Estava em um estado gripal com tosse, mal estar e hipertermia de 38.5. Ela me ligou pedindo algumas considerações sobre o que fazer e eu lhe prescrevi medicamentos homeopáticos, baseados na totalidade sintomática específica do seu processo de adoecimento. Além disso eu recomendei a ela NÃO tomar anti-piréticos (dipirona) para não bloquear a fenômeno da febre, que é extremamente positivo para o processo de cura.
Hoje ela me relatou estar bem melhor, mas que no sábado "precisou tomar novalgina"...
"Porque?, pensei eu. Ela já não tinha sido avisada a não usar este medicamento?"
Sim.... respondi em solilóquio... Ela "sabia" intelectivamente, mas fatores "para além da racionalidade" a levaram a usar uma droga para baixar artificialmente a febre. Talvez a pressão dos pais, as palavras da mãe, a ansiedade por curar-se, o medo, a insegurança, etc...
Assim também acontece com o nascimento humano.
Mesmo que mulheres possam entender "racionalmente" as questões de que tratamos aqui (e nos consultórios) diariamente, ela está imersa em um aquário cultural que a faz enxergar apenas a "água tecnocrática" pela frente. Mulheres são também vítimas de uma sociedade que aposta no terror e no medo, para fazer valer um modelo centrado no consumo de armaduras (medicamentos, cirurgias, chekups, etc...). Fugir desta constrição imposta pela cultura é extremamente difícil, e às vezes praticamente impossível.
Parto normal é um ato político, já me soprava Max, há séculos... Não há como esconder, como escamotear.
Ele é um liquidificador ligado no condomínio da cultura, às 3 da madrugada.
Todos se assustam... e a maioria não gosta, porque, de uma forma ou de outra (e mesmo que só por alguns breves momentos), os acorda do sono da Matrix.

Se Nao for por amor
Ricardo Herbert Jones

"Não há pra mim humanização sem amor, sem empatia, sem doação, sem carinho, sem olhos nos olhos. Michel Odent sem amor é só um amontoado dede palavras pra mim."

Pois eu costumo dizer que a paisagem sempre é diferente quando se sobe na montanha e, de lá, observamos a paisagem. O movimento de humanização do nascimento é inequivocamente uma ação humana libertária, e facilita a nossa compreensão se pudermos analisá-lo sob a ótica e pela dinâmica deste tipo de atuação. Eu o pareio com os movimentos anti-escravagistas do século XIX e os sufragistas do início do século passado. Os indivíduos relacionados com essas lutas poderiam diferir entre si pela nacionalidade, gênero, idade e contexto histórico, mas tinham uma mesma ligação apaixonada com suas idéias. É natural que essas "forças conspiratórias" necessitem de um "quanta" de energia pulsional violenta para romper as barreiras de interesses egoísticos. Não existe processo transformativo humano que prescinda de tal força propulsora.

O problema é quando a ideologia se apodera do indivíduo e se torna mais forte que o sentimento primordial de amor ao próximo. É quando surge o fanatismo. Não é estranho imaginar que os "homens bomba" do Islã sejam movidos pelo amor e por uma gigantesca dedicação a uma causa libertária e humanista. Entretanto, seu amor é desvirtuado, prostituído, porque banaliza a vida, transformando seres humanos em peças descartáveis na grande maquinaria da vida. É quando vc, por exemplo, queima em praça pública (ou na praça cibernética) uma mulher por ela ter tomado decisões que não se aliam com suas convicções pessoais sobre o tema. É quando vc desvirtua as palavras de mestres para fazer valer seu ponto de vista. É quando vc se afasta do amor, do carinho, da atenção e do afeto; a ideologia toma corpo e se agiganta, esmagando o humano.

Suas palavras, Eva, são extremamente importantes no crescente movimento de "libertação da mulher e do parto", pois que deve ser um lembrete constante em qualquer ação nesse sentido: "O que estou fazendo é movido por amor?"

Sem esse norte, nos perderemos.
Sem esse horizonte, estaremos à deriva de interesses menores, talvez tão egoísticos quanto aqueles que supostamente combatemos.

Muito bem lembrado.
Recordei agora de uma história que sempre conto. Quando foram avaliar as etapas do protocolo de Dublin (Managed Care) em que se colocavam as mulheres sob o comando do relógio do médico, toques de hora em hora, ruptura artificial da bolsa, ocitocina artificial (se a mulher não cumprisse etapas), analgesia peridural ampla e irrestrita e controle total pelos médicos, os revisores do protocolo perceberam que o único fator que claramente diminuía a taxa de cesarianas não estava relacionado diretamente com as técnicas e drogas utilizadas. Na verdade, as enfermeiras do hospital, apiedadas das dores excruciantes provocadas pela ocitocina sintética injetada nas pacientes, aproximavam-se destas e se mantinham segurando suas mãos, formando o ancestral circuito "um para um" das antigas parteiras. Pois os pesquisadores perceberam que ESSE FATOR, o afeto proporcionado pelas enfermeiras do hospital, estava acima dos demais, e foi o único que se demonstrou reproduzível como determinante destes resultados.

No fim, o elemento chave não era o hospital, o amniótomo, a ocitocina, o relógio.... Era o amor.

Essa lição apenas já seria suficiente para que entendêssemos que a chave para entender o segredo do parto está nesse estranho elemento. Há muitos anos (mais de 10 anos) eu conversava com minha amiga psicanalista Eliane a respeito de uma grave discussão que tive com mulheres de um grupo (formado igualmente por idealistas) no qual participava. Depois de escutar minhas argumentações, ela respondeu.

- O problema é o idioma, Ric. De nada adianta toda a sua argumentação racional. Mesmo que correta e coerente, jamais vais fazer com que elas te entendam. Mulheres não são conquistadas pela racionalidade pura. Com elas o idioma é o amor. Se não for pela via do amor, eles não vão compreender, mesmo que racionalmente assimilem. E não estou falando da "sedução rasteira", pois esta só acalanta mulheres desviadas do processo em si, centradas no seu mundo pessoal. O que se faz necessário é o toque amoroso, pois só assim elas te entenderão, por fim.

Mulheres têm um imaginário diferente do imaginário masculino; um funcionamento baseado na própria diferença anatômica e suas conseqüências fantasmáticas, mesmo que algumas pessoas desreconheçam (incrivelmente) estas diferenças humanas, que podem ser tão facilmente percebidas, bastando para isso conversar com uma criança de cinco anos. Assim, quando tratamos de uma mulher num estado tão especial como a gravidez, não podemos jamais nos afastar do único componente capaz de fazer transformações radicais: o AMOR.

Parteiras
Ricardo Herbert Jones

Podemos diferenciar as diferentes formações da parteria da seguinte maneira:

1- Parteira tradicional = Aquela que realiza partos sem uma preparação profissional FORMAL, isto é, sem frequentar escolas de parteiras, de enfermagem ou correlatas, se existirem. Aprendem "com a vida", no modelo de aprendiz (apreticeship), olhando sua mãe, sua tia, sua avó. Ocorre dentro de determinadas famílias, como um legado de mulher para mulher. Nos Estados Unidos eram chamadas de "lay midwives", (parteiras leigas), mas essa determinação caiu em desuso, porque estas mulheres poderiam ser chamadas de qualquer coisa, menos de "leigas". Apenas o aprendizado delas era produzido de forma diversa, sem a academia a lhes dar suporte, mas com o embate e o conhecimento que vinha diretamente da experiência.

2 - Parteira = Aquela profissional de partos que realizou um curso de formação específico para a assistência ao nascimento. Existem em várias partes do mundo, como Canadá, Estados Unidos, Holanda, Nova Zelândia, etc. São parteiras de "entrada direta" (direct-entry midwives), porque "entram" na profissão sem a passagem pela enfermagem e o aprendizado de outras habilidades típicas das enfermeiras. Tendem a ser livres, atender partos domiciliares e com uma tendência não-intervencionista. Mary Zwart, por exemplo é uma parteira de entrada direta que resolveu estudar enfermagem depois de muitos anos atuando como parteira na Holanda. Diferenciam-se das "parteiras tradicionais" pela formação específica e de caráter acadêmico em nível superior. Nos Estados Unidos, Canadá e México elas se agrupam sob a organização MANA (Midwives Alliance of North America) e tem um certificado nos Estados Unidos chamado CPM - Certified Professional Midwife - (Parteira Profissional Certificada). Ina May Gaskin foi por muitos anos presidente da MANA. No Brasil a professora Dulce Gualda foi uma das idealizadoras do primeiro curso de CPMs (se é que posso chamá-las assim) do Brasil, através do curso, ora em andamento, da USP Leste. Ainda não houve a formatura, mas em breve teremos de volta ao Brasil um tipo de profissional que estava extinto: a Parteira Profissional, nome proposto por Robbie Davis-Floyd para manter a denominação "parteira" vivo no imaginário desses novos profissionais. Ruth Osava, enfermeira obstetra, é uma das professoras deste curso,e trabalha na Casa de Parto de Sapopemba.

3 - Enfermeira Obstetra = Profissional de nível superior da enfermagem que fez uma pós-graduação em enfermagem obstétrica. Este curso, em nível de pós-graduação, dura em torno de 18 meses. Trabalham em muitos hospitais do centro do país, assim como em Casas de Parto. Zeza, Heloisa Lessa, Marilanda e Alexandra (de Recife), Vânia (do HU Florianópolis), etc. são alguns exemplos deste tipo de profissional. Nos Estados Unidos reunem-se sob a égide da ACNM (American College of Nurse Midwives), e lá tendem a ser mais intervencionistas e mais próximas do modelo médico, mas o mesmo não acontece com as nossas aqui, principalmente as citadas acima. Temos muitas enfermeiras obstetras no Brasil que NÃO atendem partos, e que atuam como as "ob nurses" americanas, que são enfermeiras de centro obstétrico, mas que não atendem partos, apenas preocupam-se com outros fatores relacionados ao atendimento das grávidas. Zeza trabalha em um hospital público da cidade como "enfermeira de CO", mas sem a autorização para atender nascimentos (apesar de saber mais do que a totalidade dos residentes que lá fazem treinamento). É um tremendo desperdício, que deverá ser consertado no futuro.

Nos congressos americanos que vou eu às vezes perguntava (inadvertidamente) qual a formação de uma profissional que se apresentava a mim como "midwife". Elas me sorriam e diziam: "Somos parteiras, só isso". Eu respondia, meio envergonhado: "Tudo isso..."
Entretanto, a união das parteiras é coisa nova. Assim como vemos no Brasil um certo desconforto na enfermagem com a criação das Parteiras Profissionais (de entrada direta) lá também ocorreu o mesmo. O tempo e as agruras é que as estão aproximando, finalmente, para que possamos produzir, num futuro nem tão distante, um verdadeiro modelo de "midwifery care", centrado na mulher, na família e na fisiologia do parto.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 7:51 PM


A FALÁCIA DA EPISIOTOMIA
Carlos Miner Navarro

É melhor um corte linear do que uma rotura irregular, a episiotomia protege o períneo da mulher e o cérebro do bebê. Esta é resumidamente a falácia da episiotomia.

Falácia: qualquer enunciado ou raciocínio falso que entretanto simula a veracidade, sofisma.
Sofisma: argumentação que aparenta verossimilhança ou veridicidade, mas que comete involuntariamente incorreções lógicas.
Ou seja, parece mas não é.

Episiotomia é um corte realizado no períneo, para ampliar o canal do parto. A primeira citação sobre episiotomia na literatura médica foi em 1810 (há diferentes versões para esta data), demorou quase 100 anos para ser aceita pelos médicos e é hoje a cirurgia mais realizada no mundo.
Na década de 1920 um influente médico americano John B. De Lee afirmava que a episiotomia deveria ser realizada rotineiramente. Na verdade ele ensinava que: quando o nascimento estava próximo, todas as mulheres deveriam ser (1) anestesiadas com uma substância que causava amnésia (para esquecer aquela horrível experiência do parto, a seguir (2) realizar uma grande episiotomia, (3) retirar o feto com auxílio do fórcipe e (4) suturar laboriosamente o períneo reconstituindo as condições ¿virginais¿ não esquecendo de dar o ¿ponto do marido¿.
Ao longo do tempo, sem nenhuma pesquisa científica para provar seus efeitos , passou-se a afirmar que a episiotomia protege o períneo, reduz o risco de incontinência urinária, cistocele (bexiga caída), retocele (frouxidão da vagina), que comparada com as lacerações espontâneas a episiotomia cicatriza melhor, sangra menos, dói menos, produz menos casos de dor às relações sexuais a curto e longo prazo e protege o encéfalo fetal especialmente dos prematuros (quanto mais prematuro, maior deve ser a episiotomia).
Em 1983 dois pesquisadores Thacker e Banta, publicaram uma revisão da literatura médica sobre episiotomia de 1860 até 1980, encontraram alguns bons trabalhos científicos. Concluíram que não havia evidências de sua eficácia, particularmente se usada como rotina. Na verdade havia evidências de que o desconforto e a dor eram muito maiores com a episiotomia e sérias complicações, inclusive o óbito materno, podiam estar relacionados ao procedimento. Terminaram seu trabalho recomendando que estudos científicos bem desenhados fossem realizados para avaliar a episiotomia.

Obstet Gynecol Surv. 1983 Jun;38(6):322-38. Related Articles, Links
Benefits and risks of episiotomy: an interpretative review of the English language literature, 1860-1980.
Thacker SB, Banta HD.
The benefits and risks of episiotomy in labor and delivery as recorded in the English language literature in over 350 books and articles published since 1860 are reviewed and analyzed. Episiotomy is performed in over 60 per cent of all deliveries in the United States and in a much higher per cent of primigravidas. Yet, there is no clearly defined evidence for its efficacy, particularly for routine use. In addition, although poorly studied, there is evidence that postpartum pain and discomfort are accentuated after episiotomy, and serious complications, including maternal death, can be associated with the procedure. Therefore, carefully designed controlled trials of benefit and risk should be carried out on the use of episiotomy.

A partir daí (1983) inúmeros estudos foram realizados, acumulando evidências de que a episiotomia, dói mais, cicatriza pior, sangra mais, causa dor às relações sexuais a curto e longo prazo, tem um efeito negativo para a auto-imagem da mulher (sente-se mutilada), é um importante fator de risco para incontinência urinária (juntamente com o fórcipe), aumenta o risco de lacerações graves do períneo (incluindo ruptura do esfíncter anal), diminui a força muscular do períneo, pode complicar com hematomas e infecções e finalmente, não protege o encéfalo fetal.
Diversos estudos que avaliaram a força da musculatura perineal após o parto, demonstraram que mulheres que tiveram parto com episiotomia tem o pior resultado quando comparadas com parto sem rotura ou roturas espontâneas
Então nunca se deve fazer episiotomia? Não é bem assim, as evidências científicas mostram que não devemos fazer episiotomia de rotina, porém em alguns casos ela pode ser justificada. As indicações de episiotomia são: períneo rígido (pouca elasticidade) cicatriz muito fibrosa de uma episiotomia anterior, uso do fórcipe ou vácuo-extrator (é possível fazer parto a fórcipe ou vácuo-extrator sem episiotomia, mas depende de grande prática e habilidade), períneo muito curto (pequena distância entre a vagina e o ânus), sofrimento fetal grave em que o bebê tem que nascer imediatamente. O fato de ser primeiro filho não é indicação de episiotomia e o tamanho de bebê também não.
É incrível, mas todas estas informações estão disponíveis há mais de 20 anos, e em alguns lugares pratica-se a episiotomia em todos os partos.
Assim como o colo do útero, que dilata progressivamente, o períneo também deve dilatar devagar. Permitir que o período expulsivo ocorra naturalmente, sem puxos dirigidos é fundamental para reduzir as lacerações perineais. Portanto a mulher deve empurrar o bebê segundo sua vontade e não ser estimulada, empurrar a barriga por cima então , nem pensar.
A posição para a expulsão do bebê também deve ser considerada, a pior de todas é a chamada posição de litotomia (deitada de costas com as pernas apoiadas em perneiras) pois estica o períneo e favorece as lacerações.
Em resumo, à luz das evidências atuais, um parto em posição verticalizada ou lateral, permitindo a progressão lenta da cabeça do bebê, proteção do períneo, episiotomia somente em casos selecionados, deveria ser rotina e não exceção.
Ainda temos um longo caminho pela frente, mas cada vez mais estas informações vão sendo divulgadas e as taxas de episiotomia no mundo todo, incluindo o Brasil vem diminuindo, talvez lentamente, mas já é um começo.

Mudança de hábito

Muitas mulheres nem sabem o nome dessa cirurgia, mesmo quando a ela foram submetidas. Trata-se da episiotomia, corte feito no parto normal para apressar o nascimento do bebê. Acontece que esse procedimento, quase sempre, é desnecessário.

por kátia stringueto

Age/Keystock

Praticada em cerca de 80% dos partos, quando o ideal seria em 20%, a incisão está na mira das autoridades de saúde desde que a Medicina Baseada em Evidências provou que, na maioria dos casos, não protege nem a mãe nem o bebê. Ao contrário, seria responsável por um número maior de infecções pós-operatórias, hemorragias e até rebaixamento da bexiga.

Esse último seria um dos fatores que levam à incontinência urinária na maturidade e ocorre porque o obstetra dificilmente consegue recompor a região pélvica como antes. É mais um motivo para acabar
com o vício da episiotomia.

Todo mundo sabe o quanto é difícil sair da rotina. Mesmo que seja para melhor. Em se tratando de medicina, a mudança de paradigmas é ainda mais complicada quando enfrenta a resistência dos próprios médicos.

E a episiotomia, introduzida na obstetrícia em 1742, entra como um
desses hábitos duros de mudar. A incisão no períneo, grupo de músculos que vai da vagina ao ânus, seria uma forma de ampliar a abertura vaginal facilitando a saída do bebê durante o parto normal. Há até uma intenção nobre nesse procedimento. O corte, controlado, poderia ser bem suturado recompondo a musculatura local e evitando uma laceração brusca, irregular e, portanto, de difícil correção.

Parecia bom, mas a prática não comprovou a teoria e estudos recentes apontam um aumento no risco de trauma, infecções, hematoma e dor, além de maior tendência à incontinência urinária entre as parturientes que passaram pela cirurgia. "Não existe o efeito protetor que todos imaginávamos. Não é porque se fez episiotomia que a mulher não ficará com a vagina dilatada ou com a bexiga baixa", diz Eduardo de Souza, chefe do centro obstétrico do Hospital São Paulo.

Diante desses resultados, a tendência mundial é restringir o uso da episiotomia. No Brasil, uma campanha nesse sentido começou no ano passado. Há dois benefícios relevantes: primeiro, não se faz o corte na mulher (que implica uso de anestesia e risco de infecção), e, segundo, mantém-se a musculatura perineal íntegra, já que nem sempre o obstetra consegue recompor o assoalho pélvico como antes, o que pode facilitar o afrouxamento da região e rebaixamento da bexiga, levando à incontinência urinária.

Curioso é que, mesmo com todas essas vantagens, a maioria dos obstetras ainda realiza o procedimento como quem cumpre um ritual. Basta o parto demorar um pouco e pronto. Falta paciência e, pior, falta esclarecimento.

"A postura moderna é que se use a episiotomia seletiva, quando o bebê é muito grande e está forçando a região do períneo, por exemplo. Ou quando a musculatura da mulher é muito rígida. Nesse caso, uma rutura no local poderia ser tão extensa que chegaria até o ânus", esclarece Eduardo de Souza.

A inexperiência poderia até justificar que se fizesse a episiotomia antes de se ter certeza de que a musculatura perineal não vai suportar a passagem do bebê.
Não é bem o caso. A maior resistência à mudança de rotina obstétrica vêm dos médicos mais antigos. Às vezes, por uma questão de puro vício.
"Lembro de uma médica que pedia para que lhe segurassem as mãos a fim de evitar que praticasse a episio, como também é conhecida no meio médico", disse a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd em visita à São Paulo à convite do Distrito de Saúde de Campo Limpo da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

A antropóloga informou que nos Estados Unidos, apesar de estar em queda, a operação ainda ocorre em 80% a 90% dos partos normais de primíparas (grávidas do primeiro filho). No Hospital São Paulo o índice é um pouco inferior: 70%. Mas ainda muito acima do desejável quando se sabe que cerca de 20% a 30% dos partos normais necessitam de episiotomia.

Norma sem sentido

O quadro é semelhante a outro hospital conveniado ao Complexo Unifesp/SPDM, o Hospital Estadual de Diadema. Lá, de cada sete partos normais realizados por dia, cerca de cinco incluem o procedimento.

Já é um avanço quando se lembra que antigamente fazia-se episiotomia em todas as mulheres. "Era uma norma sem sentido", diz o obstetra Levon Badiglian Filho, plantonista. "O médico ainda faz a incisão meio que no piloto automático para ajudar a criança a nascer mais rápido. Mas fazer nascer mais rápido não significa fazer nascer melhor."

É essa consciência que se espera do médico. Abreviar o parto quando necessário, se o bebê está em sofrimento. Mas manter a integridade do corpo da mulher sempre que possível. O abuso da episiotomia remete a outra questão importante:
como o parto é conduzido. Dar à luz na posição inclinada - e não deitada - facilita o nascimento e diminui a episio. Quanto ao medo de lesões, vale saber: "As lesões que se pode causar à mulher ao cortar-se o músculo perineal, entre a vagina e o ânus, são piores do que as pequenas lacerações", diz a enfermeira obstetra Ana Cristina d'Andretta Tanaka, do Departamento de Saúde Materno Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP. Pela experiência de atendimento no Hospital de Itapecerica da Serra, em São Paulo, a enfermeira observou que 50% dos partos normais acabam não tendo laceração alguma.

"Na outra metade, a maior parte sofreu lacerações superficiais, de primeiro e segundo grau. Rupturas de terceiro grau, que são um pouco mais profundas, aconteceram em 5% das parturientes, enquanto que nenhuma apresentou laceração grave", conta.

O Feto enquanto Sujeito
Ricardo Herbert Jones
"Mas, eu sou super ansiosa; não teria como esperar a hora do parto para saber o sexo pois, primeiro, acho que quando sabemos o sexo com antecedência criamos uma identidade com o bebê a gravidez toda, chamando-o pelo nome e não por "bebê", na minha opinião."
Outra: "Eu acho que você é super se não morrer de curiosidade de saber o sexo!!! Estou com 13 semanas e realmente desesperada para saber se meu bebê é menino ou menina ... Nem conseguimos escolher o nome ainda de tanta ansiedade."
Mais ainda: "Eu surtaria de ansiedade se não soubesse o sexo do meu bebê, rs!"


Eu já escrevi muito a respeito de avaliações ecográficas, e não quero ficar batendo demasiado na mesma tecla. Entre os humanistas do nascimento muito se fala sobre nos possíveis malefícios das ultrassonografias em profusão sobre o bebê, inclusive com algum dados recentes relacionados a retardos de crescimento, lateralidade alterada e transtornos auditivos. Isso eu acho que não preciso falar agora, porque tanta gente já discorreu sobre esta questão. Eu queria apenas falar um pouco sobre as repercussões na mãe e porque eu acredito que as ultrassonografias podem ser um problema para uma gravidez. Vejo uma falha da medicina e dos médicos em tratar da questão da proteção psicológica da mulher gestante diante de fatos inesperados.
Qualquer grupamento, seja de sociedades simples ou complexas, realiza seus rituais de reconhecimento dos recém-nascidos com um respeito evidente pela parcela considerável de imponderabilidade aplicada ao evento. Mesmo que a fertilidade e os partos sejam processos ritualizados e exaltados desde a mais remota antiguidade, um nascimento é uma incógnita, mesmo hoje com todos os recursos possíveis aplicáveis através da tecnologia. Não há como saber-se como terminará uma gestação de uma mulher que nos entrega, cheia de emoção e temores, um exame de HCG positivo. O investimento amoroso e afetivo (além de físico) que uma mulher empenha na gravidez deve ser sempre ponderado, na medida em que ela (e modernamente também seu companheiro) aposta em uma POSSIBILIDADE, e que assim deveria ser encarada.
Os grupamentos de caçadores-coletores do paleolítico, os índios brasileiros e as civilizações primitivas sempre procuraram manter as mulheres protegidas do tenebroso sofrimento espiritual causado por uma gestação malfadada. Uma das formas de se realizar esta "rede de segurança" é o retardo no reconhecimento do recém-nascido como indivíduo. Assim, os rituais de "batismo" (o nome se aplica apenas aos cristãos, por João Batista, mas tem a ver com o modelo ritualístico de aceitação do novo membro) se retardam até que o pequeno consiga superar os desafios dos primeiros meses. Entre os índios brasileiros do alto Xingu as crianças só recebem nome após um ano de idade, quando já foram vencidas muitas etapas adaptativas, e a mortalidade infantil decresce em incidência. Até então são chamados de apelidos oferecidos pelos vizinhos ou amigos, como "Xico", "Zeca", "Nana", etc. Inúmeras outras culturas utilizam o mesmo modelo, que prioriza a proteção emocional da mãe diante de uma perda possível. Nomear a criança (com seu nome indígena) é individualizá-la, torná-la parte do grupo, aceitá-la e acolhê-la.
Entre as tribos que praticam o infanticídio, como método de controle social e populacional, o recém-nato é sacrificado imediatamente após o nascimento, mas impede-se que a mãe veja as feições do seu filho, com o igual objetivo de não produzir uma dor de ordem afetiva e espiriutual demasiado forte.
O contrário parece acontecer em nossa sociedade, tendo como causa um ufanismo injustificado na tecnologia como provedora de respostas e segurança na gestação. O nascimento humano não pode ser melhorado por ela, como sabemos, mas ela pode nos fazer estabelecer uma relação precoce com nossos filhos, ainda albergados no claustro materno. A questão é como contornar as evidentes relações de afeto que se formam entre a mãe e seu feto, agora "tornado gente" pelo olhar perscrutador da tecnologia.
O grande problema é que nos jogamos em direção àquilo que as civilizações que nos antecederam sempre evitaram: a colocação do feto na posição de sujeito, de indivíduo, de pessoa. Essa idéia, que perpassa inclusive pelo sistema jurídico americano (onde o feto é tratado como pessoa separada de sua mãe e onde existem inclusive grupos de "defesa dos direitos fetais"), parece desdenhar dos riscos de morte fetal, assim como os riscos de depressão materna pela perda de um feto, já portador de nome, identidade, feições, parecências e destinos.
A idéia de relacionar-se precocemente com um feto, que já tem nome e que não é mais apenas o "bebê", carrega consigo o peso de lidar com as tragédias possíveis, decorrentes das perdas que não se podem prever ou prevenir. As mulheres desta lista que já passaram por abortos espontâneos precoces sabem o quanto é doloroso este momento, mas aquelas que perderam uma gravidez avantajada perceberam a enorme diferença que existe quando o feto já é uma "realidade visível".
É interessante, entretanto, notar como as mulheres desejam ardentemente (...desesperada para saber se meu bebê é menino ou menina... Eu surtaria de ansiedade se não soubesse o sexo do meu bebê, rs!) entrar em contato com este feto, mesmo sabendo que isso pode lhe ocasionar uma dificuldade muito maior para dar conta de uma eventual perda.
Sei que estou tratando de valores pessoais e de crenças particulares, mas acredito que as civilizações que nos antecederam tiveram sempre muito clara esta sabedoria: preservar a mãe das agruras de gestações fracassadas, porque elas precisam ter saúde depois desse infortúnio se quisermos que voltem a engravidar. Uma forma de auxiliar é não estimular um contato extemporâneo e precoce, para evitar que um poderoso investimento afetivo e espiritual possa trazer consequências funestas para esta mulher.
Mas... como não se apaixonar pelo rostinho de um bebê em uma ecografia 4D?
Como não querer mais e mais, numa sociedade intoxicada por imediatismos?
Como esperar, numa cultura onde o tempo é a principal moeda, e onde os espetáculos (como as ultrassonografias) é que contam?

Perguntas para as quais tenho dificuldade em achar as respostas.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 7:44 PM


Sexta-feira, Dezembro 30, 2005

Todo Poeta é um ET
(Poesia de Maximiliam sobre um tema do Grupo "Os PoETs")

"É chegada a hora da Grande Revelação
Todos os PoEtas, todos os Humanistas...
ETs são...

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET...

Poetas, cientistas, profetas, visionários
Bailarinas, professores, palhaços, escriturários
Médicos, engenheiros, engraxates e parteiras,
ETs são...

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET...

Canais vaginais, dilatações e conjugatas
Desproporções, cesarianas e bravatas
Úteros, ovários e Falópios,
Anestesias, silêncios e ópio.

Qualquer um pode ver
Dntro da palavra poETa tem um ET...

Lágrimas, sorrisos e gritos
Palavras, sonhos e mitos,
Beleza, alegria e comunhão
(re)Nascimento, família e paixão.

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET...

O olho que enxerga
Nào é o mesmo que vê
A imagem que a vista capta
Não é a mesma
Que o retina rapta

Humanista, poETa, podicrê
O que te faz um ET
Não é de onde você vem
Mas o que voce... vê!

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET !!!"

Mitologias Estruturais

Robbie fala muito de Peter Reynolds em "Birth as an American Rite of Passage"
Ele se reporta com originalidade à mitologia tecnológica, ou ao "imperativo tecnocrático".

Imperativo Tecnocrático: "Se há tecnologia para ser usada ela DEVE ser utilizada, mesmo que ela se demonstre inútil ou mesmo destrutiva".
Reynolds quer dizer que o que nos movimenta em direção à sofisticação tecnológica é basicamente um sistema de crenças, um mito evolutivo e transcendente, e não o que a nossa arrogância supõe ser uma escolha racional emanada das luzes do saber científico. Essa mitologia contemporânea e ocidental é algo que nos oferece uma teleologia e um rumo e é por isso que nos escandalizamos (tanto mais quanto mais formos etnocêntricos) quando nos deparamos com sociedades que não enxergam o mundo sob o viés deste sistema. Nas sociedades contemporâneas somos governados por um mito básico; o mito tecnológico, surgido no século XVII, com o estabelecimento da máquina como metáfora fundamental para explicar a existência e o funcionamento humanos. A Tecnocracia é o sistema de poder que se assenta sobre essa crença na mitologia tecnológica. É por isso que só poderíamos construir um modelo tecnocrático de assistência (ou de existência) se tivéssemos uma base FILOSÓFICA que sustentasse e explicasse este modelo. Sem Descartes e o mecanicismo não poderia haver o mundo como o conhecemos. Ele surgiu para dar um novo contorno à realidade, e nesse sentido pode ser considerado um dos maiores gênios da humanidade. É por
essa estrutura filosófica, que explica o universo e os seres, que é POSSÍVEL construir um paradigma médico centrado na tecnologia. Sem isso (uma forma alternativa à religião para interpretar o mundo circundante e suas leis), seria inadmissível suprimir os modelos precedentes, que entendiam a mulher como um organismo ligado à natureza, à água, à vida, aos ciclos e à terra.

Peter Reynolds teve a genialidade de entender, através do "Punch Theory" (Teoria do "Empurrão" - tradução horrorosa, perdão) que o que movimenta os passos da sociedade é a mão invisível de um sistema de crenças PRÉ-RACIONAL, isto é, não é determinado racionalmente. Está ligado às crenças primitivas, que nos levam ao âmago de nosso sistema de valores.
Isso explica porque, mesmo que os humanistas do nascimento tenham todas as explicações, os estudos, as evidências, as comprovações, essas não se traduzem em modificações das rotinas e dos protocolos, porque o que norteia as modificações são questões aquém da racionalidade; estão ligadas ao desejo(*). Esses valores, por sua vez, estão atados às construções
milenares que estabelecemos pelas nossas estratégias de sobrevivência.
Atualmente nada que fuja dos pilares básicos de nossa estrutura social, o patriarcado e o capitalismo, será bem aceito. Veja o drama do Movimento de Humanização do Nascimento: ataca frontalmente o patriarcado, por valorizar a mulher e principalmente o feminino, e também o capitalismo, pois agride o sistema de poder que se estabelece com a medicina, os hospitais, as indústrias de medicamentos e equipamentos.

O "Punch Theory" do Reynolds basicamente demonstra que o "Punch 2" se estabelece pelo bloqueio irracional de questionar o mito básico que determinou o ataque inicial à natureza (Punch 1), seja a hospitalização de mulheres, o desmatamento da Amazônia ou a criação de usinas atômicas. Ele demonstra que o determinante desta "trilha" não é racional, mas uma direção mitologicamente determinada pela cultura na busca de atingir seus objetivos. Atacar o "Punch 1" (como a hospitalização ou
doentificação das mulheres) seria questionar os valores irracionais que o determinam, e isso seria tão desestabilizador como questionar o controle sobre a sexualidade feminina, ou a supremacia do macho nas culturas abrahâmicas.

Uma pergunta que eu me faço constantemente é: "Não estaríamos também nos baseando em desejos pré-lógicos para construir uma visão alternativa da realidade?"

Minha resposta a este questionamento é: Se dissermos que assim nos igualamos aos que criticamos porque TAMBÉM temos um sistema de crenças a nos guiar (tanto quanto os tecnocratas da medicina) creio que a afirmação estará absolutamente correta.

Somos igualmente norteados por crenças e modelos de compreensão da realidade.

O que me move na escolha por ser um humanista é a forma específica como enxergo o mundo, que é algo que recebi da minha história, da minha vida, meus pais, minhas circunstâncias, meu país, meus genes, etc... enfim, aquilo que me constitui. Isso NADA tem a ver com saber ou ciência: é apenas uma vinculação de ordem emocional, pré-lógica - como bem disse Elisabeth Janeway(**) - relacionada com nossa ligação com o mundo e uma determinada interpretação da realidade.

Posso, por exemplo, ser um espiritualista e enxergar o parto como o regresso de um espírito ao plano da matéria, e realizar uma série de rituais que evocam um "retorno" ao convívio com seus pares num mundo de provas e expiações. Posso fazer o mesmo movimento (ou semelhante) agindo como um Caronte(***) contemporâneo levando meus pacientes no barco da morte no último acenar à vida, encarando a despedida como um breve adeus e uma volta à pátria espiritual. As ritualísticas empregadas em ambos os casos seriam diversas das usadas se minha "formatação" pessoal fosse essencialmente materialista, existencialista ou hedonista. Essas são "escolhas" (as aspas são para dar conta do que verdadeiramente escolhemos) que fazemos diante do mistério da vida e da certeza da morte. Não são racionais ou cientificamente embasadas, até este momento, mas são ativas
e poderosas, mesmo que as desconheçamos. A imensa maioria dos médicos, por exemplo, desconhece completamente que suas atitudes são comandadas por estas crenças primitivas, inconscientes e irracionais; acreditam ingenuamente serem senhores de sua consciência.

Estaremos, então, fazendo a mesma coisa que criticamos?
Sim e não.
Claro que usamos o nosso desejo para moldar a realidade a ele. Somos humanos e feitos da mesma matriz frágil de carne e linguagem.
Mas, veja... Estamos contrapondo um novo sistema de crenças ao existente, assim como Galileu, Freud, Darwin e tantos outros o fizeram. Tentamos mostrar uma outra explicação para o nascimento humano, e utilizamos a ferramenta do saber científico e da experimentação para alcançar este fim. Humanização do Nascimento NÃO é um sistema religioso (em essência, dogmático e fechado) e por isso podemos utilizar a ciência para depurar nossa visão do fenômeno. Criticar um modelo pressupõe oferecer uma
explicação mais clara e lógica para os enigmas que ficaram em aberto no paradigma anterior.

Quando questionamos a violência aplicada ao parto estamos agindo como o compassivo aborígine que não aceitava o sacrifício de virgens para aplacar a fúria dos elementos. Perguntava ao sacerdote (autoridade de um sistema de crenças dogmático que explicava o mundo através de uma teleologia específica) se havia provas, ou evidências científicas, de que a morte de moças de comportamento (teoricamente) ilibado poderia melhorar a erupção vulcânica. Entendia que deveria haver outras explicações, ou
OUTROS MODELOS para elucidar as intempéries, e que a morte de pessoas inocentes não poderia trazer nada além de mais dor e sofrimento. E fazia isso porque era vinculado a um outro paradigma, a uma outra compreensão das causas e efeitos do universo.... provavelmente um dos proto-humanistas.

Qualquer vinculação dogmática e fechada nos transforma em modelo religioso, e a humanização do nascimento não se propõe a tal. Fechar questão contrariamente à tecnologia não é a sua proposta. Somos signatários de uma visão de SÍNTESE, que congrega as conquistas da ciência aplicadas ao nascimento com as informações milenarmente trazidas no que concerne ao suporte emocional e afetivo às grávidas. Podemos ser chamados de "anti-tecnocratas", mas não de "anti-tecnológicos", porque entendemos a tecnocracia como um sistema de PODER sobre a sociedade, onde os que controlam a tecnologia e a informação tem preponderância sobre os demais. Por outro lado, vemos a tecnologia como um dos pilares que sustentam a hominalidade, qual seja, a possibilidade de transformar o mundo que nos cerca através de ferramentas, sendo, portanto, algo inalienável do ser
humano, e que diferencia nossa espécie das demais.

Aceitar que somos criados de matéria frágil e maleável nos faz entender o quanto ainda somos vinculados a modelos mágicos e limitados. Como caminhantes dos milênios carregamos o gérmen da inconformidade, tendo o infinito como limite e a mutação camaleônica como sina.

O ABC do Parto
"Adriana Tanese Nogueira"

A ¿ Ame a si mesma, ame seu corpo. Anime-se.
B ¿ Beije seu marido, companheiro, beije quem você
ama.
C ¿ Caminhe, cante, concentre-se. Confie.
D ¿ Deixe seu trabalho de parto acontecer; deixe-se
ser.
E ¿ Emocione-se, enxergue a beleza do que está
acontecendo.
F ¿ Faça tudo o que sentir vontade de fazer.
G ¿ Goze.
H ¿ Haja paciência!
I ¿ Intua, invente, imagine.
J ¿ Jogue fora os medos e os preconceitos.
K ¿ Ki que é isso?!
L ¿ Levante-se e rebole.
M ¿ Mantenha a calma.
N ¿ Não perca as esperanças nem a confiança em si
mesma.
O ¿ Olhe para dentro de si. Ouça seus instintos.
P ¿ Pare para perceber seu heroísmo e a maravilha do
nascimento.
Q ¿ Queira sua inteireza.
R ¿ Respire fundo.
S - Siga o ritmo de seu corpo. Siga a natureza
respirando dentro de você.
T ¿ Tenha coragem e fé.
U ¿ Úive como uma loba.
V ¿ Veja como é forte, veja seu poder.
W ¿ Wow! Você está conseguindo!!
X ¿ Xiii..., o médico ainda não chegou...
Y ¿ Yeesss! Você consegui!
Z ¿ Ziliões de vezes você venceu

Terras Distantes
Maximiliam

Existe um oceano
um oceano de três séculos de largura
milhares de mães de profundidade
que separa a alma feminina
do nascer em liberdade
um espaço hediondo
que nem a mais veloz das caravelas suplanta
e nem o mais vigoroso dos ventos aproxima
Quanto mais meus braços cortam o mar
mas pareço me afastar da esperança
não há sinal de terra à vista
de uma terra perdida, somente a lembrança
que se pode encontrar apenas em sonhos...
quem dera, ó mãe quem dera
pudesse um dia eu pisar nesta terra
e verdejar contigo nesta praia
e feito pequeno
de novo encontrar o colo perdido
na estranha terra que um dia
quisera eu ter nascido

Mulheres e Sociedade
Ricardo Herbert Jones
O texto exato da Cochrane:
"Este caminho [estudo de casos controle] é particularmente valioso quando o resultado presumível é raro, ou quando não puder ser determinado por meses ou anos após um cuidado específico tiver sido administrado. Por exemplo: quando casos de paralisia cerebral foram comparados com controles, nenhuma diferença na freqüência de cuidados insuficientes (substandard - baixo padrão) foi detectada durante o trabalho de parto ou no próprio parto, lançando dúvidas na crença disseminada de que a qualidade do cuidado intraparto é um fator importante na etiologia da paralisia cerebral."

Minha crença assumida: mães saudáveis não causam malefício a seus filhos enquanto aguardam em seus ventres o momento de nascer.
O trabalho de parto é prejudicado pela tremenda carga de intervenção sensorial e medicamentosa sobre as mulheres. Assim manipulado, torna-se perigoso e propenso a distúrbios.
Paralisia cerebral é, na IMENSA maioria das vezes, uma doença que se estabelece ANTES do nascimento.
O trabalho de parto e o parto são eventos BENÉFICOS para o feto, pois são preparatórios para uma vida extra-uterina, rica em oxigênio e estímulos de toda natureza (tácteis, visuais, sonoros, afetivos, etc...).
A vigilância ostensiva, exagerada e prejudicial, sobre as mulheres em trabalho de parto é uma encenação que faz parte de um ritual contemporâneo, onde os atabaques, tambores, fogueiras e cachimbos foram substituídos por jalecos, máscaras, estetoscópios e máquinas de fazer "PIM". Remetem-nos às fundações profundas de nossa arquitetura social. Dizem do cuidado que os homens têm concernente à a multiplicação da espécie e o aparecimento de novos elementos sociais. Este tipo de cuidado, moderno e urbano, tem como base estrutural a desconfiança na mulher, uma misoginia essencial, que desacredita na capacidade feminina de gestar e parir em segurança. Se Decartes estabeleceu a metáfora do corpo humano como máquina, para a mulher coube a concepção de uma máquina defeituosa, mal acabada, mal feita e propensa a erros. Como são elas as "matrizes", as que carregam nossos filhos no ventre, é natural que usemos nossa razão para livrar as novas gerações dos malefícios causados por um modelo de parto equivocado, pois necessita do corpo de uma mulher - agora entendida como perigosa - para albergar nossos rebentos. É um mito disseminado pelas culturas contemporâneas, fruto de sociedades falocêntricas patriarcais e territorialistas, emergidas de uma estrutura que molda indivíduos preparados para a guerra e o combate, e que necessita esmagar e controlar os valores do feminino. Eis porque humanização do nascimento só pode ocorrer junto com a paz, porque precisa de mulhes empoderadas e fortes, que só podem surgir em tempos de concórdia e fraternidade. Entretanto, em tempos de guerra os ícones são outros: Rambo, Schwarznegger, Chuck Norris, Van Damme e "Margareth Tatcher" ou "Sheena" (mulheres, mas guerreiras, que nada ficam devendo aos seus parceiros de armas...)
Toda a obstetrícia ocidental se assenta nesse modelo de compreensão da realidade. Em verdade, estes modelos precedem a existência de um saber obstétrico moderno, e este último só pôde ter expressão social quando mudamos o olhar sobre as mulheres grávidas e seus valores.
Para o resgate de um nascimento mais SEGURO há que se modificar o olhar que lançamos às grávidas, junto com a derrubada de mitos milenarmente construídos. Não podemos mais continuar olhando a tecnologia como a "redentora" de uma humanidade sem futuro, e não podemos mais entender as mulheres como defectivas, incompetentes e incapazes de dar conta de suas tarefas femininas sem o suporte fálico da intervenção masculina.
"Humanizar o Nascimento é Restituir Protagonismo à Mulher", e também conceber esta mulher como essencialmente competente para dar conta destas tarefas. A ninguém parece plausível que às mulheres seja oferecida a desassistência como alternativa à violência, à frieza e à objetualização a que são submetidas na assistência ao nascimento dos dias de hoje. Por outro lado, o tipo de suporte a elas oferecido no rito de passagem do nascimento humano precisa ser repensado, para que tenhamos uma nova forma de acolher a nossos filhos que chegam a este mundo.

Provas
Ricardo Herbert Jones

"...Minha amiga trabalha na AACD e vê muitos casos de crianças que nasceram de PN que tem problemas mentais decorrentes do parto....Vcs tem alguma informação sobre esse índice? Fica parecendo que a cesária é uma forma de evitar todos os problemas que o bebê possa ter e que o PN é o vilão...."

Primeiramente, não é VOCÊ que tem que apresentar provas... É ELA.
Se eu te disser que não deves mais comer arroz porque dá câncer, seria uma estupidez minha exigir de ti "provas de que o arroz NÃO produz câncer". Se eu culpabilizo o parto por produzir sequelas mentais, tenho que provara RELAÇÃO entre estes dois eventos.

Quem modifica o 'status quo' carrega consigo o ônus da prova...

Perceba: eu falei que deve existir uma relação de CAUSALIDADE entre estes dois eventos: parto e sequelas mentais.
É muito fácil entender o que digo, quando te afirmo que 100% dos pacientes com câncer comeram regularmente arroz nos últimos 30 anos.

Portanto.... portanto o quê? Diante do fato de que comeram arroz e tiveram câncer, posso afirmar o quê?
Como posso fazer afirmações nesse sentido? Posso provar que uma coisa causou a outra? Onde está o "nexo causal"?

O que sua amiga quer dizer é que, por existirem crianças sequeladas que nasceram de parto normal, este evento seria o culpado.
Ela deve olhar para uma amostra de crianças da AACD e dizer: "Está vendo? Nasceram quase todas de parto normal e estão aí, com danos cerebrais irreversíveis". O "quase todas" deve ser umas 60%, mais ou menos o índice de partos normais contemporâneo (com a notável variedade dependente da faixa social atendida pela instituição).

Esta é mais uma forma de colocar a culpa no corpo mal feito, equivocado, defectivo e perigoso da mulher, certo?
E mais uma maneira de valorizar a intervenção sobre este corpo pelo saber masculino e interventivo da medicina.

Porém, os dados mais atuais nos dão conta de que nos últimos 30 anos não tivemos decréscimo nos índices de paralisia cerebral, mesmo após TRIPLICAR a incidência de cesariana na população. (Chalmers I 1985 "Schizophrenia in obstetric practice: not intervening is negligence, intervening is assault" paper given in Milan,Italy; Wagner M 1994 "Pursuing the Birth Machine: the Search for Appropriate Birth Technology" ACE Graphics, Sydney Australia & Sevenoaks, Kent, UK; Wagner, M "Bad Habits" AIMS Journal, Winter 1999/2000, vol 11 nº 4).

Assim sendo, o que tua amiga fala demonstra apenas o nível de preconceito que ela tem com o feminino e suas expressões, e não uma caracterização dos percalços de um parto. Ela ESCOLHE olhar para estas crianças e enxergar sofrimento pela passagem pelo corpo de suas mães. E sua amiga faz isso porque tem uma cultura misógina por trás a lhe determinar o tipo de mirada que fará em direção a um determinado evento. Somos (mea culpa: também me incluo nessa massa) doutrinados a acreditar na incompetência natural e essencial da mulher para cumprir com suas atribuições. Em relação à sua amiga, porém, é importante entender como ela se situa em relação a estas verdade. Como diria Morpheus a Neo, "existem algumas pessoas que não têm como ser libertadas da Matrix". Talvez sua amiga, de tão intoxicada pelo viés misógino contemporâneo, seja incapaz de entender a paralisa cerebral como um evento CONSTITUTIVO, e que nada tem a ver com o nascimento.

Para finalizar, uma informação da biblioteca Cochrane que sempre me fez pensar muito sobre a verdadeira extensão do cuidado obstétrico. (Enkin M. & Cols, "Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto". 3a Edição - Guanabara Koogan 2000). Se vc isola e estuda um grupo grande de crianças com seqüelas graves mentais e analisa caso a caso, verá que "assistência médica ausente ou pobre NÃO é causadora de paralisia cerebral". Isso acaba com a idéia de que o problema nestas crianças foi a desassistência ou o atendimento precário, sem hospital, posto médico, medicamentos ou cirurgia de urgência. E isso deveria deixar claro, também, que o parto, deixado a acontecer de uma forma livre e sem interferências, é um evento seguro e automático, que só pode sofrer intervenções com justificativas muito claras e com uma freqüência muito rara. O que vemos na contemporaneidade é a prostituição dos corpos femininos pela intervenção desmedida e sem critério de um modelo que prioriza o lucro, o comércio e a alienação, e que continua a enxergar a mulher como indigna de carregar nossos filhos.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 12:10 PM


Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

Todo Poeta é um ET
(Poesia de Maximiliam sobre um tema do Grupo "Os PoETs"

"É chegada a hora da Grande Revelação
Todos os PoEtas, todos os Humanistas...
ETs são...

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET...

Poetas, cientistas, profetas, visionários
Bailarinas, professores, palhaços, escriturários
Médicos, engenheiros, engraxates e parteiras,
ETs são...

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET...

Canais vaginais, dilatações e conjugatas
Desproporções, cesarianas e bravatas
Úteros, ovários e Falópios,
Anestesias, silêncios e ópio.

Qualquer um pode ver
Dntro da palavra poETa tem um ET...

Lágrimas, sorrisos e gritos
Palavras, sonhos e mitos,
Beleza, alegria e comunhão
(re)Nascimento, família e paixão.

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET...

O olho que enxerga
Nào é o mesmo que vê
A imagem que a vista capta
Não é a mesma
Que o retina rapta

Humanista, poETa, podicrê
O que te faz um ET
Não é de onde você vem
Mas o que vc... vê!

Qualquer um pode ver
Dentro da palavra poETa tem um ET !!!"

Shakespeare e o nascimento
Por Ricardo Herbert Jhones - Medico Obstetra Humanista

A cesariana, segundo Shakespeare

MACBETH: Descarrega tua arma sobre elmos vulneráveis: minha vida não a pode cortar homem nascido de nenhuma mulher.
MACDUFF: O teu encanto não vale contra mim. Diga-te o anjo que é teu senhor: 'Macduff foi arrancado do ventre de sua mãe antes do tempo!'."
(Macbeth, ato V, cena VIII).

Vejam só: para Shakespeare, o homem nascido de uma cesariana "não nasceu de mulher"...
--------------------------------------------------------------------------------
Que interessante, não é?
Pegando carona no pensamento de Tomas Pablo Paschero, homeopata argentino, eu diria que "nascemos de um grito, e esse grito fica marcado em nossa memória celular como um 'imprint' indelével; a marca da união idílica com nossa mãe". Este momento, marcado pelo som do 'grito primal', ficará se repetindo incessantemente durante toda a nossa vida, como um lamento de uma perda, a lágrima sonora e imaginária da dor de partir. Com este som criamos a Música, na tentativa de sublimar essa ruptura, procurando na busca infinita da harmonia preencher o vazio deixado pelo nascimento e marcado por este som. Nas palavras de Shakespeare, o nascimento ocorria apenas quando esta guturalidade se expressava, marca inequívoca da dor e da separação. Sem este início a ele parecia que a vida não
podia se estabelecer, ou pelo menos não era de mesma "essência". Assim também acontece no mundo animal, onde as impressões do nascimento são fundamentais para o estabelecimento do vínculo. Centenas de trabalhos na área da etologia (estudo do comportamento animal) nos mostram a importância dos sons, cheiros e sensações experimentados pelos mamíferos para forjar a vinculação e o reconhecimento de suas crias. O ser humano, a partir da aquisição da linguagem, sepultou o "mundo natural" como o
conhecemos, mas não destruiu as marcas de sua ancestralidade animal, permanecendo estas como norteadoras de sua pulsionalidade. Nossas crias indefesas e frágeis nos obrigaram a um cuidado altamente intenso, prolongado, sofisticado e sutil, cuja vinculação intensa acabou produzindo toda a arquitetura psicológica edípica da nossa espécie. É por esta razão que nossos filhos incompletos precisam tanto que sua chegada a este mundo seja pontuada pelos signos que fortificarão sua estrutura emocional. O "grito" do nascimento é apenas um desses signos, que infelizmente se perde na artificialização do parto. Que será de uma humanidade que se evidencia ao mundo submersa no silêncio? Que será de uma civilização cujas crianças não escutaram os vagidos maternos, proto-música a lhes embalar os sonhos? O que será de nossos descendentes, nascidos na assepsia e na frieza metálica de salas tecnológicas, onde o afeto pede licença às máquinas para se expressar? Como se constrói o psiquismo de uma criança que não sentiu o desejo de sua mãe expresso nos lamentos e nas forças que que ela realizou para que, assim, pudesse nascer? Mesmo que nossa racionalidade e a linguagem sejam capazes de criar outros meios de moldar essa arquitetura emocional, a perda deste vínculo inicial só pode ser
vista como uma deficiência no lento e complexo processo de vinculação amorosa. Hoje em dia cada vez mais percebemos que o momento do nascimento é altamente importante para o que vai ocorrer no resto de nossas vidas, e negligenciá-lo agride nossa própria idéia de humanidade. Desprezar o nascimento com a totalidade de seus sinais pode ser a forma mais rápida de criarmos o Apocalipse e, desta vez, sem ataques de fora; apenas abrigando e cultivando dentro de nós o silêncio que, tal qual um corvo, devorará os olhos de quem o criou.

Sorrisos

Eu entendo as situaçoes e as pressões a que uma gestante está sujeita. Posso também entender as vinculações que fazem com o parto normal e as mortes de crianças. Mesmo sendo equivocadas, elas fazem parte do imaginário social e retirá-las daí é tão complicado quanto explicar para uma pessoa que se ela jogar os números 1, 2, 3, 4, 5 e 6 na Senna a possibilidade de ganhar é IGUAL a jogar números aleatórios. Parece a qualquer um de nós que existe uma "lei" que impede os números de sairem em sequencia, certo? E parece que para os partos a mesma coisa; se crianças morreram, é "óbvio" que os partos normais foram os culpados e não as condições de cada uma das crianças, ou o contexto econômico ou o saneamento ou o acesso aos recursos de higiene. Mulheres são as responsáveis pela iniquidade e pela dor, desde Eva, a primeira culpada da história.

É muito claro hoje em dia que as posições deitadas (supinas) são muito mais agressivas para o períneo do que as posições verticais. As revisões da biblioteca Cochrane deixam muito claro a qualidade superior das posturas verticalizadas (cócoras, joelhos, agachadas, de pé) sobre a posição "clássica" obstétrica de litotomia (posição de galinha-assada), que é a MELHOR posição possível.... para o médico e suas intervenções, mas é péssima para a mãe e o recém nascido.

Quanto ao "Mito do Bebê Encaixado", muito já foi dito e discutido nestas listas. Bebês não precisam encaixar na pelve antes do trabalho de parto. Muitas mulheres adaptam seus bebês durante o processo de descida e dilatação; algumas na hora em que as contrações se tornam realmente efetivas. Bebês não-encaixados são frequentemente usados como desculpas para cesarianas. Não existem justificativas para operar uma paciente cujo bebê não está firmemente fixo na bacia ANTES DO TRABALHO DE PARTO.
As contrações (do trabalho efetivo ou até as de Braxton-Hicks) é que se encarregam de direcionar o bebê para o estreito inferior da pelve.

Sabemos onde estas histórias provavelmente vão dar: cesariana "bem indicada", porque "afinal o bebê não encaixou ou o cordão estava enrolado ou a placenta estava velha ou o Flamengo perdeu pro Botafogo ou o bebê tomou água do parto ou fez cocô na barriga ou tinha uma parafuseta protodiastólica, etc..."

Ou aprendemos a nos vincular com as evidências e a informação ou vamos continuar abusando das vinculações mágicas e transferencias que estabelecemos com os poderosos, no caso os obstetras. A relação deveria ser horizontal, mas continuamos com a verticalidade alienante que recebemos de herança do patriarcado.

Acredito que as mulheres devam reavaliar a disposição de seus obstetras em assistir um parto normal. Procurem saber o índice pessoal do obstetra e de partos normais e quantas das suas pacientes gestantes são "obrigadas" a uma cesariana por terem "falhado" em algum ponto. Pergunte para a secretária dela quantas vezes desmarca consultas por estar acompanhando partos. Pergunte às pacientes dela que já tiveram bebês. Pergunte números para a médica, e não aceite coisas como "a maioria dos partos é normal"... exija percentuais. Seja chata, afinal é do seu bebê que vc está tratando.

Por último: não se deixe enganar por gentilezas (verdadeiras ou falsas). Existem cesaristas verdadeiramente honestos, bondosos, caridosos, amáveis, gentis e simpáticos. Acredito mesmo que a maioria seja assim, mas se quer algo além de simpatia deve procurar bem. Não se deixe levar por sorrisos e, acima de tudo, estude, pergunte, busque, não esmoreça, não canse, lute, brigue, discuta e faça valer o SEU DIREITO DE MULHER.

Cordões
No último congresso de Ecologia do Nascimento, no México, eu apresentei uma aula sobre o "cordão umbilical e seus mistérios".

Foi interessante perceber o quanto de misticismo ainda existe relacionado a este maravilhoso sistema de trocas gasosas e nutricionais entre mãe e bebê. A criação da ecografia, nos anos 70, acresentou mais elementos ainda para os temores quanto às suas disfunções. Interessante é notar que em meu país (mas acredito que em Portugal não seja de todo diferente) existe a idéia de que os "acidentes de cordão" são extremamente perigosos e problemáticos, requerendo a cirurgia salvadora para que o evento nào se transforme em tragédia. Por outro lado, pesquisas bem conduzidas dão conta de que 39% de todas as gestações possuem circulares cervicais. Isto é, quatro de cada dez gestações apresentam esta "anomalia", que exatamente pela sua incidência tão alta, não poderia ser encarada como um processo "anômalo", mas sim como uma "variação da normalidade".
Lembrem-se, por outro lado, que nas mulheres sempre encontramos anomalias, pela compreensão essencial de que elas são defectivas e insuficientes por natureza. Encontrar voltas de cordão e acreditar serem risco para o término adequado de uma gravidez faz parte do modelo natural de compreensão do fenômeno na nossa cultura, que no dizer de Maximilian é a mitologia da "iminência do desastre". Grávidas são sempre consideradas frágeis, "quebráveis", incapazes, não confiáveis e não seguras para levar adiante uma gravidez. São contêineres imperfeitos e incompetentes para carregar um fruto que já não é mais seu, o bebê, mas que pertence a NÓS, sociedade. As voltas de cordão são apenas a justificativa gráfica para a confirmação de uma tese que carregamos em nossas cabeças: "mulheres
só podem dar a luz se for através de nosso saber e nossa arte.". Manifestação mais clara de "Couvade" não me vem à cabeça.

A despeito da enormidade de casos de circulares cervicais, as pesquisas demonstraram que as mulheres com duas ou mais voltas de cordão NÃO APRESENTAM morbidade maior ao nascer se comparadas com mulheres com nenhuma volta ao redor do pescoço. Vejam bem: estamos falando de DUAS ou mais voltas, e não das míseras voltas únicas que encontramos amiúde nos consultórios de ultrassonografia. Isso só já poderia fazer cair por terra TODAS as indicações de cirurgia por esta falsa justificativa, mas bem
sabemos que a ciência e a razão NÃO SÃO as norteadoras das condutas médicas. Somos guiados por forças etéreas e incorpóreas muito mais potentes, por serem pré-racionais e comandadas pelo desejo. Médicos são mantenedores de um sistema social do qual são também beneficiários. O patriarcado e o modelo acumulador de riquezas, base de nossa sociedade contemporânea, são os paradigmas áureos de condução do proceder médico. Pouco se produz e se estabelece baseado na pesquisa séria e abrangente: somos
profissionais guiados por mitologias, e não pelas luzes da razão.

Quanto ao que fazer quando da descida dificultada pelas circulares cervicais, eu temo que não poderia te responder, porque nunca, em 20 anos de obstetrícia, vi um caso assim. É possível que estejas te referindo a um cordão tão curto (acrescido de uma circular) que impediria a descida, mas um caso como esse eu não tive a oportunidade de encontrar. Já vi crianças nascerem absolutamente bem totalmente enroladas no cordào, e já vi paradas de progressão em crianças com circulares, mas com cordões longos o suficiente para permitir a descida adequada da apresentação.
Uma parada de descida que se justifique pelo cordão enrolado no corpo de um bebê eu ainda não presenciei. Caso encontre, é possível que a própria progressão anômala do trabalho de parto me encaminhe para a realização de uma cesariana pela total impossibilidade de descida, ou pelo aparecimento de desacelerações constantes durante e após as contrações.
Estando em casa, iríamos então interromper o 'projeto de parto domiciliar' e nos encaminharíamos para o hospital. Sem pressão e sem pressa, até porque o tempo deve jogar a favor da grávida, e não o oposto. Se não houver alternativa nesse caso, a cesariana esteria indicada com segurança, como métdo para salvaguardar o bem-estar da mãe e seu bebê.

A verdade é que, assim como as "placentas envelhecidas", as circulares de cordão são entidades que foram "criadas" a partir da avaliação ecográfica dos anos 80 em diante. Antes disso, apesar das circulares serem visualizadas ao nascer, nunca foi dada nenhuma importância ao fato. Hoje em dia as mulheres têm pânico ao ser mencionado tal fato numa gravidez.
Claro também fica que o medo das "anomalias de cordão" é justificado pela propaganda de serviços que vendem ou executam este tipo de exame. É necessário para o mercado que, antes de vender o produto, se crie a necessidade social de seu uso. Isso foi feito com os ultrassons, mas também com os automóveis, os telemóveis, etc... Faz parte da cultura capitalista, onde a saúde é vista como apenas mais um bem de consumo. É obvio que, a partir dessa visão pessimista em relação à mulher e sua capacidade de levar a contento uma gravidez, realizar uma cesariana a pedido é um passo muito pequeno. Entretanto, é importante que fique claro que não existem justificativas para, diante do atual estado da ciência, realizar cirurgias em face de uma circular de cordão. Mesmo assim, é muito
difícil convencer mulheres de que esse quadro é benigno e, muito menos, convencer os médicos de que eles estarão seguros ao oferecer um caminho menos agressivo para as mulheres. Lembrem-se que ambos, médico e paciente, estão suijeitos à mesma mitologia tecnológica, prisioneiros do "imperativo tecnológico" de Reynolds, que diz que "onde há tecnologia ela DEVE ser usada", mesmo que ela cause morte e dor.

Resgate
Sobre os problemas advindos de uma cesariana para o bom desenvolvimento do "attachment", ou ligação entre mãe e filho:

Estamos falando de uma deficiência, que pode ser suprida durante a vida. Tratamos de uma falha, que precisa (ou pode) ser preenchida. Nascer de cesariana não é uma "sina" que vai determinar inexoravelmente o futuro de alguém. Apesar disso, é algo que deve ser levado em consideração extrema quando se pensa no futuro emocional de alguém, mas jamais como uma via sem regresso. Não existe isso na vida: escrevemos nosso destino a medida que caminhamos. Entretanto sabemos que alguns elementos são capazes de imprimir extremas dificuldades e, na minha opinião, a forma como nascemos vai criar este ambiente mais difícil para se estabelecer a vinculação.
Um trabalho bem maior vai ser necessário para compensar esta falha.
Um exemplo: eu não fui amamentado ao seio, mas mesmo assim sou capaz de respirar normalmente. Apesar da minha "deficiência alimentar" acho consegui superar razoavelmente essa falha (não dá para aquilatar as questões emocionais) e não me tornei um respirador bucal. Isso não invalida o fato de que NÃO amamentar (ou desmamar prewcocemente) aumenta terrivelmente a chance de se desenvolver este tipo de distúrbio respiratório. Por sorte (?) eu não fui acometido disso, mas certamente por algum tipo de compensação que me foi oferecido, ou por uma natural proteção.
Ter uma cesariana, necessária ou não, não é uma desgraça incurável, mas uma dificuldade a mais, que às vezes pode ser a determinante de um grande estrago.

O que é secundário
Vale a pena repetir.
Essa história de "o bebê é primordial" ou "o meu desejo é secundário" não faria muito sentido na nossa cabeça se a gente REALMENTE assumisse que mãe e bebê compõe uma unidade que apenas o tempo (e nem sequer o parto) desfaz. Essa é uma unidade fisiológica até o momento do corte do cordão, mas uma comunhão energética poderosa ainda depois dele. Assim sendo, uma mãe desconsiderada, desempoderada, alienada e manipulada (e, frequentemente, drogada) está SIM prejudicando indiretamente seu bebê.
Fazer um esforço para que um bebê nasça num ambiente adequado, cercada de carinho e com respeito pelos direitos desta mãe produz benefícios DIRETOS para este bebê que está para nascer. Não existem estas separações arbitrárias que nossos pobres sentidos denunciam, porque as ligações são muito mais sutis e poderosas. O laço entre mãe e filho é o mais forte que existe entre os mamíferos. Ontem mesmo eu vi o filme "Os Esquecidos" que trata exatamente da capacidade que uma mulher tem de amar e jamais esquecer uma criança, e que essa força seria uma das mais potentes do universo.
Talvez seja realmente através do amor materno a nossa possibilidade de mudar o planeta.
Se os governantes pudessem entender este poder e esta ligação, talvez pudessemos construir um mundo um pouco diferente, baseado na cooperação e no amor incondicional.
Não me parece, portanto, adequada a discussão sobre o que é mais importante ou quem seja o ator principal do espetáculo. Creio que
necessitamos entender o "maebebê" como uma verdadeira UNIDADE, que precisa ser valorizada, e para a qual precisamos congregar nossos esforços de segurança, carinho, amparo e afeto. Colocar mães na frente, ou bebês, vai de encontro às concepções mais atuais que os colocam como inseparáveis e vivendo numa ligação indissolúvel. Apenas a nossa arrogância é capaz de entendê-los desvinculados um do outro.
Entendo perfeitamente os debatedores que valorizam os bebês, porque essa é uma característica que emana da essência feminina. Entendo igualmente os que defendem os direitos da mulher pelo direito à segurança e ao suporte, assim como também pelo prazer e pela alegria da vitória por um parto conquistado. Só não concordo que essas coisas não sejam o MESMO assunto, pois que não existe possibilidade (a não ser teórica) de desvincular um ser do outro.
Não quero esgotar este assunto, até porque ele é rico e cheio de nunces, mas acredito que a idéia de congregar mães e bebês e de entendê-los em UNIDADE é uma forma de desfazer a bruma que esfumaça nossa compreensão das intervenções sobre eles realizadas.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 12:01 PM


Quinta-feira, Dezembro 22, 2005

Outras (velhas) lamentações
Por Ricardo Herbert Jhones - Medico Obstetra Humanista

Queria falar sobre partos demorados e seus resultados para uma reflexão sobre o norteador das condutas médicas. É minha opinião sobre o protagonismo restituído como ÚNICA salvação para a realidade obstétrica brasileira.

"Enfim, entre o dia 2 e o dia 9 eu fui 3 vezes ao consultório. E a médica dizia: seu colo continua grosso e que deveríamos marcar de eu ir pro hospital no dia 9 (uma segunda-feira) pq já ia entrar em um período de risco. Segundo ela, depois da 40ª semana pode acontecer algo e o coração do bebê parar de bater de uma hora pra outra."

Uma gravidez normal vai até quase 43 semanas, de acordo com as revisões atualizadas do modelo de Naëgele.
O problema é que os médicos agem procurando (sempre) se proteger. Médicos não são kamikazes. Médicos tem família, sonhos, desejos e temores. Incrível.... eles também são humanos.

Se a mãe morrer durante uma cesariana não há NENHUM problema para o médico, pelo menos do ponto de vista social. Aqui não me refiro às questões pessoais e subjetivas, até porque acredito que um médico que perde um cliente sofre uma dor que nunca é totalmente curada, por mais que ele tenha feito tudo para ajudar sua paciente.. Eu bem sei o que é isso...
Entretanto, não há como condenar um médico que realizou uma cesariana... Ele fez tudo. Ele agiu com todos os recursos. Usou a tecnologia salvadora. Ele não permitiu que o bebê "sufocasse" dentro da barriga da mãe. Tirou o bebê antes que "passasse da hora". Ele não foi negligente e preguiçoso para operar. Não foi um fanático contra a tecnologia. Ele não foi irresponsável e ficou esperando até não dar mais tempo e operar correndo. Não foi incompetente e utilizou o melhor que a medicina produz. Usou os medicamentos e as drogas químicas corretas.
Ele agiu de acordo com os seus colegas dizem ser melhor. Não acredita em MBE, porque isso retira a autonomia e o poder de decidir de acordo com seu "feeling". É admirado por outras pacientes, por livrar as mulheres da "dor insuportável de parir". Protegeu o cérebro do bebê, antes que fosse "amassado" pela vagina constritiva de sua mãe.

Ninguém pode condenar um médico que age assim, mesmo que existam provas que se empilham e acumulam mostrando que essa conduta é equivocada. Os médicos tem AUTORIZAÇÃO social para (até) causar danos em uma paciente, se agirem dentro da "lei" tecnológica. Tem um filme do 007 que leva esse nome. Mas analisem bem: os médicos atuam desta maneira intervencionista porque é assim que as MULHERES determinam. É assim que são pressionados pela cultura. Não agem assim para ganhar mais dinheiro (isso até existe, mas não é a motivação preponderante) ou para poupar tempo. Agem por MEDO, pensando na própria sobrevivência. NENHUM médico é processado por uma cesariana feita. NENHUM! E se alguém me apontar um processo (fora do meu estado) eu aposto que ele ganha FÁCIL, porque será julgado primordialmente por seus pares, que inocentarão um colega que reforça o paradigma de poder oferecido ao MÉDICO e expropriado da paciente. Os médicos dos conselhos pensam na corporação, acima de tudo. Se o médico agride a corporação com sua prática... pau nele!! Do contrário, é valorizado e defendido. Isso acontece em qualquer "corporação de ofício"... não é exclusividade da medicina. Médicos que defendem as mulheres e seus filhos, que apoiam-se na medicina baseada em evidências, que estudam e que se aprimoram, que oferecem um panorama realista do nascimento (não ocultando riscos em QUALQUER das alternativas) são alvos fáceis da corporação e dos pacientes que buscam culpados para todas as vicissitudes humanas. Médicos humanistas são vítimas da PRÓPRIA SOCIEDADE A QUEM TENTAM PROTEGER. Qualquer semelhança com Neo ou Cristo (condenados pelos seus pares) NÃO É mera coincidência.

Algumas cesareas têm o medo como signo. O médico tem também MEDO do que isso poderia significar: passar de uma determinada data mágica determinada pela cultura para que os bebês venham a nascer, que já foi 42, passou para 41 e agora está situada nas 40 semanas.

Pergunte-se com honestidade: Vc estaria pronta para protegê-lo se o seu bebê tivesse algum problema num parto normal com 42 semanas? Estaria ao lado dele se esse problema fosse indetectável antes do parto? Seria parceira do médico na responsabilidade sobre o resultado do nascimento? Ou faria o jogo de 99% das pacientes? "Se ele tivesse operado na segunda passada estaria com meu filho nos braços. Ele foi irresponsável. e os próprios colegas dele concordam. Ele é louco: insiste num parto normal mesmo quando não dá. Ele devia ter visto que não tenho passagem. Meu outro médico já havia me alertado que não daria certo um parto normal porque sou estreita. Minha mãe me avisou o tempo todo. Porque não usar a tecnologia que está aí para salvar vidas? Porque ele recusou-se a usar os recursos oferecidos?".

A sociedade tem os médicos que merece (e a polícia e os governantes e o trânsito assassino). Quando as mulheres chegam ao meu consultório reclamando do marido espancador e alcoolista, sempre faço a mesma pergunta: "O que fez vc para se interessar por um marido assim? Que parte toca a você nesse jogo?". Quando reclamamos da medicina que temos eu pergunto: "O que vc (nós) está fazendo para mudar este cenário? Reclamando dos médicos? Acha mesmo que são os médicos os responsáveis por isso? Acha que essa situação de alienação foi construída pelos profissionais? Ou quem sabe, eles são tão participantes quanto vc?"

Que lugar estamos, NÓS consumidores, ocupando nesse cenário? Não existe papel mais fácil do que acreditar na humanização do nascimento quando tudo dá certo e quando os bebês estão felizes mamando no colo da mãe. Isso é simples e fácil. Quero saber quem continua acreditando quando o SEU caso foi ruim, quando o seu momento está situado na pontinha da curva de Gauss? Quem continuaria entendendo a situação GLOBAL, a importância disso para a HUMANIDADE, mesmo que sua experiência seja negativa?

Isso ocorre apenas com as pessoas preparadas. Iluminadas. Apenas com pessoas que cultivam uma compreensão ALÉM DOS LIMITES DA PRÓPRIA EPIDERME. Que não encaram o mundo como um sistema criado por Deus para satisfazer as SUAS vontades egoísticas. Essas são as pessoas fundamentais e as especiais; aquelas que lutam toda uma vida. Como dizia Bertold Brecht: "Esses são os indispensáveis e imprescindíveis"... Assim são porque trazem o novo e só através delas é que poderemos construir uma nova sociedade.

E aqui é impossível não lembrar de algumas mulheres (além do discurso) que estavam JUNTO com seus cuidadores.
Casos de VBAC com resultados diferentes, mas com a MESMA vinculação RESPONSÁVEL, empoderada, solidária com os cuidadores, não-alienada, não-rancorosa, forte, corajosa, amorosa e firme.
Quando as mulheres deste país tiverem bebido desta fonte e aprendido com este ex, aí sim poderemos condenar os médicos preguiçosos e irresponsáveis. Poderemos criticá-los por estarem aquém do que esta sociedade espera deles. Mas não é isso que vejo hoje em dia. Ainda estamos imersos em uma sociedade que se solidariza com alienação e julgamentos fáceis contra aqueles que querem a disseminação de poderes e responsabilidades.

Enquanto os médicos estiverem sob a ameaça da sociedade e dos cartéis corporativos do próprio ofício, é inútil e injusto criticar tais profissionais. Colocar os médicos no pedestal de "salvadores" é o mesmo (basta que giremos a moeda) que colocá-los na fogueira da inquisição, quando as coisas, a despeito do seu talento e dedicação, não acontecem como o esperado. "Babies die", já dizia Marsden Wagner, que também afirmava que "quando brincamos de Deus somos obrigados a encarar a responsabilidade pelos desastres naturais". Ou seja: se vc é um médico que "tudo pode" (se estiver com a Deusa Techné), como explicar um bebê que não sobreviveu? "Se houve algo de errado, o médico deve ter cometido uma falta".

O poder judiciário é a cara do Brasil nem poderia ser diferente, conforme expus acima.
Juizes condenam médicos usando os mesmos preconceitos vendidos pela modelo cultural technocêntrico. Humanistas estão sempre com a corda no pescoço: não recebem apoio da corporação (os CRMs são modelos de conservadorismo e corporativismo em benefício dos médicos e não necessariamente da saúde das pessoas), da sociedade como um todo, do judiciário (contaminado com o modelo tecnocrático intervencionista) e da própria mídia, que glorifica os "avanços tecnológicos da medicina", sempre fantasiosos (não diminuimos nas últimas décadas os casos fatais de câncer ou infarto, ou paralisia cerebral ao nascer, etc...) e sem evidências que os sustentem. Humanistas defendem o uso consciencioso e comprovado de tecnologia e isso vai de encontro ao modelo consumista e liberal da nossa sociedade.
Médicos humanistas economizam DINHEIRO e isso é facilmente torcido para paracer mesquinharia. Remamos contra a maré do GRANDE dinheiro (um modelo que gira com mais de 60 bilhões de dólares/ano nos EUA) e não temos apoio EFETIVO das grandes instituições, como o Estado. As campanhas de conscientização médica (como as do Ministério da Saúde do Brasil, por ex) são maravilhosas iniciativas com resultados NULOS ou pífios, porque se esquecem de incluir o judiciário, que em última instância vai acabar puxando a alavanca do cadafalso dos médicos que agem de acordo com as evidências. Ainda vejo o debate sendo conduzido de cima para baixo, chamando médicos obstetras, pediatras, administradores, enfermeiras e algumas ONGs, como a ReHuNa. Isso é POSITIVO, mas não acredito em mudanças radicais se isso não for realizado prevendo a PROTEÇÃO de quem usa a medicina baseada em evidências no trato com o nascimento humano. Enquanto a discussão não for AMPLA para TODA A SOCIEDADE, com todos os atores sociais envolvidos no debate, estaremos rumando celeremente para o pior modelo do mundo: o modelo iatrocêntrico, etiocêntrico, hospitalocêntrico, persecutório, oportunista e dinheirista dos EUA. Em breve os médicos serão vítimas aqui também da pressão das empresas de seguro médico e aí levaremos décadas para melhorar uma assistência à gestação que terá escorrido pelo ralo, engolida pelo medo, pela indústria dos processos e pela tecnocracia sem limites.

E agora? Quem poderá nos defender? CHAPOLIN?
Quem está realmente preparada para ser parceira, tanto nos riscos quanto nos resultados ruins? Quem apoiaria seu médico num caso ruim em que o uso de tecnologia foi freado? Quem está interessado em dividir responsabilidades? Quem?

Estou perguntando para as mulheres desta sociedade... todas elas. Quem de vós seria parceira do seu médico?

GENÉTICA CRUEL
Pergunta que me fiz agora, entre horrorizado e estupefato.... (desculpem... estou tendo uma crise existencial neste instante)
"Se minha mãe tivesse à mão um exame sofisticado e acurado para detecção de aberrações, e ficasse sabendo no que eu me tornaria, teria mantido a gestação?" Ai... tenho medo de perguntar a ela...

Fico até imaginando a cena...
O médico chega na sala, cheio de esfigmomanômetros e estetoscópios "Tycos" pendurados no pescoço, canetas Parker(*) no bolso do jaleco e coloca o envelope escuro que contém o resultado dos exames próximo de umas caixas de amostra grátis de Entero Viofórmio. Olha para minha mãe com uma certa gravidade. "Pose é tudo; somos atores; tenha sempre isso em mente", lembra-se ele. Pigarreia e finge estar cheio de preocupações na cabeça, quando, em verdade, está lembrando da mulher de peitos volumosos que acabou de encontrar no elevador do edifício. Minha mãe cruza nervosamente os braços, protegendo o colo da violência das palavras que teme saírem da boca do seu médico. Pensa nas roupinhas que está fazendo e teme ter que parar o crochê no meio. Lembra de outro filho, absolutamente normal, cujos exames detectaram a possibilidade de se tornar professor de medicina, matemático, músico e goleiro de futebol de salão, não exatamente nesta ordem cronológica. "Porque não daria certo desta vez?" Na sua família todos os exames apontaram para a positividade, com exceção da sua cunhada, que apresentou positividade para "dono de banca de peixe no mercado". Sequer havia consenso de que era um resultado claramente inadequado. Mas foi apenas uma, entre tantas mulheres na família... O resultado do exame da sua prima também não pode ser contabilizado como ruim, até porque saiu na capa das revistas que os médicos decretaram que "dançarino de lambada" não podia mais ser classificado como "resultado negativo", tendo sido retirado do DSM como "doença", e colocado como "desvio da normalidade". Olha para os exames em cima da mesa e treme. "Poderia ser um padeiro, um caminhoneiro ou um dentista. Tudo bem, não tenho preconceitos". Ela sente-se culpada "Porque não fiquei vendo o Programa Flávio Cavalcanti até mais tarde? Tinha que apagar a luz! E toda aquela conversa mole de que 'um filho só é pouco'..." Se arrependimento matasse teríamos uma emergência médica fatal na sala do obstetra.

Os segundos parecem horas. Minha mãe não consegue conter-se de pânico e ansiedade. Olha para a cara do médico e chega a notar a barba crescendo-lhe no rosto. Porque tanto tempo para abrir um mísero envelope? Qual o objetivo desta tortura?

Rapt. O médico rasga o envelope lacrado em uma das pontas e vislumbra, espichando o olho, o conteúdo onde estão os exames de detecção genética. Coloca o pedacinho rasgado do envelope num cinzeiro sobre a mesa, onde se lê "Fármácia Xamequinho, sempre cuidando de você". A mão cabeluda do obstetra penetra no envelope e minha mãe sente um arrepio, sem entender bem porque. "Ok... agora pelo menos saberei".

Os papéis aparecem na borda do envelope. Consegue ver o timbre vermelho "Laboratório Vita Brevis, sua saú..." As letras se embaralham quando o médico puxa os papéis. Levanta os óculos fininhos comprados nas óticas "Lince" e franze o sobrecenho.

Franzir o sobrecenho faz parte das mais rebuscadas aulas de conduta médica. Conheço um colega que tem uma técnica fantástica de comprimir as sobrancelhas e fazer "hum" olhando para um traçado de monitor fetal. Ele já foi convidado a palestrar em Harward sobre esta metodologia e está escrevendo um tratado sobre "mão no queixo e suas implicações terapêuticas".

Ele está lendo os resultados. Molha os lábios com a língua e folheia as 3 ou 4 páginas cheias de desenhos e curvas. Minha mãe ainda consegue ver, por translucência, os gráficos impressos na folhas. Uns descem, outros sobem. O que esta subindo? O que esta descendo? É normal? Poderá estudar, jogar bola, comer pizza? Ou terá anomalias como vegetarianismo, ecologismo ou tendências esquerdistas?

O doutor finalmente se pronuncia. Mistura palavras difíceis com expressões mais "populares". Ele é piedoso com a ignorância de minha mãe quanto aos jargões.

"Os exames não foram de todo ruins, madame", diz, baixando os oclinhos fininhos. "Temos pontos positivos, como o time que ele torcerá, mas algumas coisas para as quais a senhora e seu marido devem estar preparados. Não é uma tragédia, até porque a medicina já fez muitos progressos (pigarreia) e já existem tratamentos com razoável sucesso (pigarreia). Não quero lhe dar falsas esperanças, mas também não procuro lhe oferecer um quadro demasiado negro. Veja bem, os medicamentos modernos e..."

As últimas palavras sequer foram captadas por minha mãe. Os sons entravam embaralhados em seus ouvidos e chocavam com as paredes da cóclea, fazendo com que cada sílaba se repetisse indefinidamente, produzindo uma multiplicidade de ruídos indecifráveis. Escutava a voz do doutor como de um túnel escuro e frio, onde não chega nenhuma luz. Levanta a mão lentamente até a boca seca e de seus lábios de cera brota o pedido último:
"Doutor...diz ela com uma voz enevoada, qual o resultado?"
O médico olha firmemente para seu rosto. Pela 1ª vez ela via consternação no rosto do profissional. Ele tinha algo pesado a dizer, e mesmo os anos de frieza da escola médica não eram suficientes para que ele contivesse o olhar compreensivo e misericordioso.

"Dona Elba, apareceu "homeopata" e "obstetra humanista" no exame. Podemos repetir ou fazer alguns mais sofisticados, mas acho inútil. Sinto muito. Fiz o que pude. Mas tente ver pelo lado positivo, se é que a senhora consegue encontrar algum."

Minha mãe está imóvel. Olha fixo para um ponto da parede. Não consegue dizer nada e até a respiração parece ter se interrompido.
Não escutou quando o médico pediu a presença do meu pai no consultório nem quando ele frisou a palavra "urgência" para a secretária. Os sonhos escorriam pelo chão e se depositavam ao lado da pequena cesta de lixo, onde se lia "Padaria Santa Sé, onde o seu pão é sagrado".

"A senhora tem alguma religião", perguntou por último o médico. Inútil. Minha mãe já estava desacordada nos braços da secretária sendo abanada por uma toalha de rosto, onde se lia "Casas Pernambucanas. Onde ser feliz é tão fácil".

Cães
Meu filho disse que o seu professor de linguística dizia que uma das coisas que mais o diverte imaginar é um cachorro dizendo: "Meu pai é um homem pobre, porém honrado"
Já imaginou um cão dizendo isso? Imagine um cachorro a quem fosse dada a capacidade de se expressar pela voz...
A frase acima (escolhida propositalmente pela EXTREMA complexidade) é uma síntese de valores símbolos, imagens, significantes e palavras. Imagine o conceito de "pai", do ponto de vista de um cão...E pobreza... E o que dizer de HONRA ????
Cães não têm acesso e esses símbolos, por isso não possuem linguagem.

Desculpe.Voltei rapidamente ao tema.
Mas o que eu queria dizer é que a humanização aplicada ao nascimento é realmente uma visão antropocêntrica, e NÃO uma visão NATURALISTA. Essa visão naturalista é exatamente do que nos criticam os tecnicistas da medicina. Quando nos chamam de "naturebas" ou "comedores de placenta" estão nos acusando de deixar que as leis da natureza ajam sem nenhuma
intervenção. Nos acusam de desreconhecer o drama e o horror, imersos num mundo de "inconsciência natural". O naturalismo aplicado ao parto vc encontra nos grupos de partos desassistido, no mato, solitários... Lá podemos encontrar uma verdadeira comunhão com o mundo natural. Claro que nunca será total por causa da racionalidade, mas é um belo "simulacro" de natureza. Entretanto, estas pessoas que pertencem a essas "seitas" (sem ironia) se preparam para os revéses da vida natural, como por ex uma morte fetal por absoluta falta de equipamento mínimo ou uma morte materna. Acham que estas perdas fazem parte dos "desígnios da mãe terra".

As tragédias NÃO acontecem no mundo natural. Tragédia é algo criado pela linguagem. Uma fêmea que perde seu filhote para um tigre não acha isso incorreto nem dramático: acredita ser a "lei" da natureza. Mulheres imersas nesta visão naturalista da vida precisam entender também desta forma, pois que a natureza se expressa assim. Não há dramas, nem tragédias... apenas a lei se fazendo, e nós como observadores da criação divina. A racionalidade e (de novo) a linguagem, nos expropriou do paraíso.
Mudamos o mundo, criamos símbolos e interferimos na natureza. Criamos a maravilha e o horror, num lugar onde só havia a lei natural e contemplação inconsciente. Humanização do NASCIMENTO é entender o fenômeno como humano, mas sem cair na tentação ingênua de um naturalismo impossível, pois que, envolvidos pela racionalidade, o mundo natural de desapareceu para nós. Esse é um caminho sem volta. Somos parte atuante da natureza e não mais parte passiva. Esse corte é IMENSO e não há como retroagir. É ilusão imaginar um mundo natural. O que podemos fazer é pedir que paremos de agredir o meio ambiente (interno e externo) com um intervencionismo que destrói o que nos faz humanos e pertencentes à natureza (mesmo que numa situação privilegiada).

Matrix fala disso. Os filmes do Arnold & Verhoeven falam disso também. A série "Exterminador" é exatamente sobre esta questão do término da nossa espécie. Assim, continuo firme na minha idéia de que "Humanizar o Nascimento é Devolver o Protagonismo à Mulher", mesmo que a palavra "devolver" possa ser modificada. Mas vejam que Protagonismo só existe com livre arbítrio e esse é conquista da linguagem e da racionalidade. Animais são objetos da ação das leis naturais e jamais poderiam ser protagonistas de algo.

postado por: MAMAE DO KLAUSS 10:00 PM




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